Poesia Reversa - Capítulo 1 - Forlorn

Oi, tudo bem?? Cheguei com uma nova shortfic taekook! Essa é totalmente inédita e está no meu docs há séculos. Decidi postá-la aqui como conteúdo inédito para vocês e planejo postar mais conteúdos inéditos futuramente hehe


Creio que terá uns três capítulos por aí que irei postando com o tempo.


É uma história ABO num universo invertido e distópico, ou seja, é um mundo governado por ômegas e betas onde alfas são considerados a classe mais baixa e mais rejeitada pela sociedade, contendo dezenas de leis que os privam de seus direitos, por isso o nome "poesia reversa".


Terão temas de violência, linguagem imprópria, sexo, TALVEZ mpreg (talvez!), e como é uma história distópica, ela possui uma atmosfera extremamente tensa e depressiva, portanto, não leiam se não se sentirem bem com esses temas, okay? Cuidem de vocês, nossa saúde mental vem antes de qualquer fanfic.


AVISO LEGAL:

Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de difamar ou violar as imagens dos artistas.



BOA LEITURA!


Can anybody hear me?

Or am I talking to myself?

My mind is running empty

In this search for someone else

Who doesn't look right through me

It's all just static in my head

Can anybody tell me why I'm lonely like a satellite?



Quando eu era criança, escutei Tia Nana falar para uma das meninas que a solidão era o pior castigo a qual uma pessoa poderia ser submetida e na época, eu realmente acreditei nisso, afinal de contas, o homem não foi feito para ficar sozinho… certo?

É curioso, considerando que vivemos em uma sociedade formada quase que exclusivamente por pessoas solitárias.

E eu estava sozinho. Realmente sozinho. Ao contrário do que possam pensar, não é uma afirmação dramática e exagerada.

Minha sina era viver só. Eu era um alfa. Um pária. Eu não tinha ninguém e o mundo não se importava com a minha existência, e era assim que as coisas funcionavam há mais de setenta e sete anos.

Fazia tanto tempo que a sociedade vivia assim que eu simplesmente não conseguia imaginar como era antes. Nos livros diziam que antigamente, alfas, betas e ômegas viviam em uma sociedade justa e igualitária onde todos partilhavam dos mesmos direitos e deveres, todos eram tratados com a maior estima e respeito, e tudo funcionava, apesar dos diversos defeitos que um grupo social carregava.

Sendo honesto, como eu poderia acreditar naquilo quando o meu próprio nascimento pareceu significar uma espécie de maldição para a minha família? Tia Nana era a mantenedora do orfanato e me dissera várias vezes que isso não era verdade e que meu nascimento tinha sido uma benção, que eu era uma das crianças mais doces, inteligentes e encantadoras que ela tinha conhecido, mas como eu creria nisso sabendo que a velha mulher que dirigia a casa velha e despedaçada do orfanato era uma alfa assim como eu? Uma renegada, assim como eu.

A verdade era que eu era só mais um dos alfas que foram abandonados por sua família assim que descobriram minha classe ao nascer. Cresci num orfanato tendo aulas normais sobre matemática, língua coreana, geografia, ciências naturais e história até meus 18 anos, e aprendi que 77 anos atrás, um grupo extremista e supremacista formado por alfas invadiu uma república universitária onde só viviam ômegas. Após violentarem, agredirem e causarem a maior baderna com os ômegas, esses alfas foram capturados pela polícia.

A sociedade claramente ficou indignada com o que aconteceu (alfas, betas e ômegas em geral) e exigiram que eles fossem julgados e condenados por seus crimes. Houve sim um julgamento e uma condenação, mas algo aconteceu junto a isso.

Havia um sentimento de ressentimento muito grande junto à população ômega, até porque viviam todos em paz e igualdade, no entanto, isso foi conquistado com muita luta, sangue, suor e lágrimas por parte dos ômegas. Ômegas homens e mulheres lutaram por muitos e muitos anos para conquistar o respeito e espaço na sociedade, afinal, foram anos de muita subjugação pelos alfas, e foi justamente isso que alimentou de forma absurda o ressentimento. Tantos anos de sofrimento culminaram nisso. Para eles, era como se aquele incidente provasse que nem quando havia direitos iguais, eles estavam livres e seguros.

Existiam sim alfas mal-intencionados como em qualquer lugar, mas também existiam alfas bons e decentes, que prezavam pela segurança dos ômegas e pela igualdade das classes, porém, nada disso fez qualquer diferença quando o ressentimento veio. Todos sofreriam com o acerto de contas e com a repercussão do caso. Todos pagariam pelo erro daquele grupo de alfas extremistas e pelos erros que seus antepassados alfas tanto cometeram.

O momento de pagar a conta finalmente chegara à população alfa.

Começou aos poucos, mas as mudanças foram radicais. Ômegas decidiram que alfas apresentavam um perigo real à humanidade como um todo, eram verdadeiras bestas, até porque eles claramente gostavam de se comportar assim, então, deviam ser tratados como tal. Com isso, começaram as leis de segregação em que para tudo havia uma sessão exclusiva para ômegas e betas, e de forma separada, uma para alfas. Trouxeram leis de discriminação que colocavam alfas nos piores empregos, lhes davam os menores salários, dificultava seu acesso à educação e os proibia terminantemente de respirarem perto de ômegas e betas sem autorização. À medida que tudo foi progredindo, todos os alfas foram rebaixados a vermes, uma classe que não devia ser respeitada e considerada.

E os betas concordaram.

Foi um caos completo, de acordo com Tia Nana. Os ômegas justificavam tudo como formas de proteção e sempre que algum alfa tentava protestar e se impor, eles faziam questão de repetir quantas vezes fosse necessário que haviam sofrido coisa pior durante séculos, então era tudo uma causa e ação justas.

Isso destruiu milhões de famílias. Ômegas e alfas, e, betas e alfas casados foram forçados a se separar e a tomar medicamentos para diminuir os efeitos da marca que possuíam. Haviam famílias com filhos alfas, ômegas e betas e como consequência, os filhos alfas precisaram se separar de seus pais e mães que não fossem alfas, assim como filhos ômegas e betas se separaram de seus pais e mães que não fossem betas e ômegas.

Era irônico pensar que uma classe que lutou tanto tempo por igualdade virou toda uma sociedade de cabeça para baixo e tornou qualquer busca por direitos iguais uma verdadeira piada, se tornando tudo aquilo que eles tanto lutaram para combater.

Eu não entendia muito bem como isso funcionava quando criança, e nem a profundidade disso, afinal, por que eu não podia brincar com a garotinha ômega filha da família cuja casa ficava ao lado do orfanato? Ela era tão bonita e corava toda vez que se aproximava de mim, claramente atraída pelo o meu cheiro, e eu me encantei de primeira por ela.

Lembro bem que certa vez ela caiu da bicicleta e ralou o joelho, e como eu estava por perto brincando no parquinho ao lado, todos concluíram que eu a empurrei. Simplesmente porque eu era alfa. A mãe ômega da garota lançou um tapa tão forte em meu rosto que eu apenas comecei a chorar, assustado e sem entender o que eu havia feito. Fui xingado dos nomes mais baixos e ofensivos que uma criança poderia ouvir, e sinceramente, nunca me esqueci deles. Tia Nana foi em minha defesa após isso, alegando que denunciaria a mulher por abuso infantil, e ela apenas deu de ombros, dizendo que não aconteceria nada com ela porque nós éramos alfas e a lei não tinha quaisquer pretensões de nos ajudar, independentemente de nossa faixa etária.

Nunca mais me atrevi a chegar perto de ômegas depois daquele dia. A garotinha ômega até tentou se aproximar de mim diversas vezes depois, mas toda vez eu me afastava com uma expressão extremamente assustada, temendo levar outro tapa da mãe dela e ignorando completamente seus olhares tristonhos toda vez que eu o fazia. Nunca mais tive coragem para falar com um ômega diretamente, e eu sentia como se estivesse reprimindo meus instintos como alfa a cada dia que passava, sentindo a repreensão diária por todos ao redor por eu ser quem eu era.

Acho que foi nessa época que eu realmente entendi o que significava a solidão. E entendi também que eu estava sozinho. Assim que fiz 18 anos, fui despejado do orfanato para dar lugar a outras crianças alfas e por causa das leis que determinavam o despejo de alfas maiores de idade. Tia Nana se despediu de mim com um abraço sofrido e o rosto banhado de lágrimas, colocando algumas notas amassadas de dinheiro no bolso da minha mochila velha e surrada para que eu pudesse comprar comida até encontrar um emprego e um lugar para morar. Dormi na rua por uma semana, abraçado à minha mochila e com o capuz de meu moletom cobrindo minha cabeça enquanto contava cada centavo para comprar comida, até que finalmente achei um emprego como faxineiro de uma universidade da elite, um lugar onde só estudava gente rica. O tipo de emprego que os ômegas nunca exerciam.

Aluguei um quarto em um prédio de aparência jeitosa atrás do terreno da universidade e ali moro desde sempre. Tinha completado 25 anos no último dezembro e não via a chance de conseguir outro emprego, mesmo tentando arduamente e sempre sendo rejeitado. Ninguém queria me contratar para cargos melhores porque eu não tinha ensino superior, e isso era uma coisa rara para os alfas, poucos alfas prestavam o ensino superior na sociedade atual, não com tantas leis e tantas coisas contra nós.

Considerando tudo o que eu sabia, vivenciara e testemunhara, eu acreditava piamente que os ômegas só não causaram a nossa extinção porque precisavam de nós para procriar. Nos primeiros anos da segregação, dezenas de crianças deformadas nasceram como resultado da tentativa sistemática de não usarem alfas para procriação. Uma coisa ficou clara: um ômega não era capaz de ter bebês saudáveis com outro ômega. Graças a isso, todos os anos, muitos alfas eram retirados de suas casas à força, levados para as Clínicas de Coleta, e lá, seu sêmen e material genético era coletado para permitir que casais ômegas pudessem ter filhos saudáveis. Alfas mulheres e alfas homens não tinham problemas de deformação física com seus filhos caso procriassem (embora, seus filhos saíssem com cheiros anormalmente fortes e extremamente enjoativos), mas ômegas tinham, e esse problema foi logo solucionado.

Aconteceu justamente isso comigo. Fui concebido através de fertilização in vitro, e assim que nasci, meus pais ômegas descobriram que eu era um alfa e fui jogado fora como se fosse um verdadeiro lixo, mandado diretamente para o orfanato. Quando famílias alfas, por algum acaso, tinham filhos ômegas, essas eram obrigadas a ceder seus filhos às autoridades para que famílias ômegas e betas adequadas os adotassem e criassem. Como resultado, mais da metade da população não conhecia um ou os dois pais biológicos, os ômegas e betas eram ensinados a tratarem alfas como seres inferiores, e os alfas eram ensinados que sua condição de alfa os tornava animais. Betas e ômegas podiam ter relacionamentos entre si, mas nunca com um alfa.

Fora Tia Nana quem me vira crescer, quem me ensinou a falar, quem me viu engatinhar e andar pela primeira vez. Embora eu não pudesse chamá-la de mãe, ela era o que eu tive de mais próximo do que seria uma figura materna. Cheguei a questioná-la certa vez porque os alfas eram inferiores se nossa força era superior fisicamente, se éramos mais resistentes, se nossa função era proteger nossos ômegas e betas ao invés de nos humilharmos a eles. Ela apenas suspirou e me disse que era proibido por lei alfas usarem sua "voz" e "presença" com ômegas, correndo o risco de pegarem mais de 30 a 50 anos de reclusão dependendo da gravidade. Basicamente, minha vida se baseava a reprimir quem eu era, me diziam que eu devia ter vergonha de ser quem eu era, devia odiar a pessoa que eu era, e que eu tinha sorte dos ômegas serem tão piedosos mesmo com todos os séculos de opressão que eu, um alfa, lhes submeteu.

Hoje, eu estava acostumado a ser julgado apenas pelo meu cheiro, a ser alvo de olhares de repulsa, nojo e julgamento por parte de pessoas que nunca trocaram uma palavra sequer comigo, cochichando coisas horríveis sobre mim e insinuando que esperavam que eu fosse agir como um verdadeiro animal e atacar alguém, afinal, era isso que elas achavam que eu era.

Enquanto tudo isso acontecia, era claro que os betas nada faziam. Houve uma indignação por parte dos betas que precisaram se separar de seus alfas, mas eles foram rapidamente ignorados. A verdade é que em geral, para a população beta, se nada os afetava, nada os preocupava. Eles até ajudaram a derrubar um grupo de alfas que tentou se opor à opressão há sessenta anos atrás, agindo de forma direta para que os membros desse grupo fossem condenados à prisão perpétua por "conspirar contra a ordem, ameaça da paz e da segurança pública".

Então, aqui estava eu, assim como centenas de outros alfas na sociedade, desamparados e sozinhos, vivendo cada dia como se fosse uma verdadeira tortura, com constantes humilhações e desprezo. Não tinha nem como eu tentar entrar em contato com meu pai alfa, já que pela fertilização in vitro era impossível saber. E eu nunca me arrisquei a tentar descobrir quem foram meus pais ômegas, nunca ousei sequer cogitar a ideia de contatá-los. Para que diabos eu faria isso? Fui despejado para um orfanato de Seul com poucos dias de vida.

As leis deixavam bem claro que eu não era desejado. Nunca fui.

•••••

Eu vivia minha vida. Trabalhava como faxineiro da universidade e evitava o máximo de contato com ômegas e betas, em especial ômegas. Eu me sentia ansioso perto deles, como se fosse um mau presságio; basicamente, eu acreditava que a mera interação com ômegas era ruim e não trazia nada de produtivo ou positivo para mim. Meu supervisor era beta e era o único com quem eu falava e me dirigia ali. Claro que vez ou outra os estudantes jogavam insultos contra mim, e eu simplesmente abaixava a cabeça e ignorava, embora meu instinto, meu lobo rugisse dentro de mim, inconformado por eu estar reprimindo-o e aceitando aquilo.

No entanto, eu não podia arriscar meu emprego. Eu trabalhava ali fazia sete anos, e durante esse período, aproveitei para usar a gigantesca biblioteca secretamente no período noturno. A universidade estava sempre bem vazia de noite, a biblioteca em especial, então, eu informava meu supervisor que tinha limpado tudo e ele me liberava para o descanso. Ao invés de descansar na sala afastada e no andar de baixo do campus reservada para alfas funcionários, eu escapulia para a biblioteca, pegava alguns livros e lia escondido atrás da última estante, a que não continha muitos livros.

Eu gostava muito de biologia e direito. Eram as minhas matérias favoritas na escola, me fascinava descobrir coisas e mais coisas sobre o corpo humano, células, moléculas, códigos genéticos e DNA. E claro, sobre todas as formas e vertentes do direito e da lei. Não sei dizer se isso era resultado do fato de eu não saber quem eram os meus pais, e sendo fruto de fertilização, era como se uma pequenina chama de esperança acendesse dentro de mim, como se algum dia eu pudesse ter a chance de pesquisar isso a fundo e descobrir quem foi meu pai alfa. Ou até mesmo de procurar na lei algo que pudesse usar para meu bom uso futuramente.

Estávamos em março e era uma noite de sexta-feira. Como de costume, eu estava escondido na biblioteca e lia um livro sobre genética avançada, escondido e encolhido, buscando camuflar meu cheiro o máximo possível. Após tantos anos de leitura, estudo pessoal e conhecimento no assunto, cheguei num ponto onde poderia facilmente ler códigos e símbolos, entender cada um deles, além de conhecer exatamente como funcionava nossa lei. A chuva forte preenchia a atmosfera silenciosa da biblioteca e eu agradecia mentalmente por ter alugado um quarto atrás do campus. Não gostaria de correr o risco de adoecer por tomar um baita banho de chuva ao voltar para casa mais tarde, afinal, minhas economias dos últimos cinco meses seriam direcionadas a comprar um aparelho celular para mim e não medicamentos. Não que eu tivesse amigos para me comunicar ou pessoas para quem ligar, apenas achei que eu merecia aquele mimo para ter acesso livre à internet após trabalhar tão duro.

— ...eu já falei que não, Hyungjo. Não vou sair com você! — Uma voz masculina gritou irritada no meio da biblioteca, me fazendo dar um pulo, surpreso. Levantei-me do canto onde estava sentado e espiei através da prateleira o que estava acontecendo.

— Ah, qual é, cara! Deixa de ser esnobe, porra! — O outro garoto reclamou. — Eu ‘tô te chamando para sair faz mais de dois meses e você só me trata assim!

Eram dois ômegas. Eu podia sentir seus cheiros daqui. E só haviam os dois junto da bibliotecária ali. Um deles tinha mais ou menos a minha altura, cabelos negros e cheirava a macadâmia, enquanto que o outro era mais baixo, tinha um corpo claramente entupido de suplemento, daqueles que eu via na televisão, os cabelos castanhos e tinha um cheiro estranhamente... podre. Era muito estranho. Eu conseguia ver o rosto dele, mas não via o rosto do outro garoto, já que estava de costas para mim.

— Você é muito babaca! — O garoto com cheiro de macadâmia afirmou. — Eu não sou obrigado a sair com você, e não quero sair com você! Que coisa mais chata, larga do meu pé!

— Então, é assim, né? Você aceitou sair com o Seokjin porque ele é de família influente como a sua, mas não aceita sair comigo porque eu sou bolsista — resmungou, amargurado.

Paft!

Arregalei os olhos, chocado com a força daquele ômega. O tapa que ele lançou no rosto do outro fora tão forte que pude ouvir o barulho de seus dedos estalando contra a bochecha alheia. Mesmo de costas, percebi como ele estava muito puto, os punhos vermelhos e apertados.

— É justamente por isso que eu não aceito sair com você! — Exclamou. — Eu saí com Seokjin porque ele era um cara legal, não tem nada a ver com a condição financeira dele.

— Mentiroso — Hyungjo, o garoto do cheiro podre falou, entredentes. Sua palma encontrava-se descansada no lado que foi acertado pelo tapa, enquanto que de seus olhos queimava uma fúria evidente e uma promessa de vingança. Ele parecia estar disposto a revidar aquele tapa.

No entanto, se limitou a se virar, juntar suas coisas que estavam em cima de uma das mesas de estudo e marchar em disparada para fora da biblioteca. A própria bibliotecária o encarou com as sobrancelhas arqueadas sob os óculos pela forma esbaforida e fulminante com a qual o garoto saiu.

— Me desculpe por isso, Sra. Choi — o ômega moreno falou, suspirando pesarosamente.

— Não se preocupe com isso, querido — tranquilizou. — Porém, acho que é melhor você ir para casa, já está ficando muito tarde e a chuva está engrossando.

De cabeça abaixada, o ômega cheiroso concordou, pegou seu caderno e livro, colocando-os dentro de sua mochila e com um aceno de cabeça, saiu da biblioteca, deixando a mim e a Sra. Choi sozinhos ali.

— Você também, garoto da limpeza — a voz da mais velha soou mais alta, fazendo-me arregalar os olhos. — Você está aqui tem mais de duas horas, não vai querer adoecer por conta da chuva.

Extremamente sem graça, deixei o livro na prateleira e coloquei as mãos nos bolsos do meu uniforme cinza, caminhando em disparada à saída do lugar. Meus cabelos louros caíram sobre meus olhos quando abaixei minha cabeça, querendo escapar o mais rápido possível dali.

— Qual livro você estava lendo hoje? — A mulher, uma ômega, perguntou. — Não pense que eu nunca vi você se esgueirando nessa biblioteca antes. Eu sou velha, não tonta.

— Genética avançada — respondi baixinho.

— Oh sim — assentiu, parecendo refletir acerca de alguma coisa. — Você gostaria de ser um geneticista?

Sem ter uma resposta concreta para aquela pergunta, dei de ombros. Não era como se o que eu queria fizesse alguma diferença de qualquer forma.

— Você tem que ter sonhos e objetivos, garoto — afirmou. — Mesmo que a sociedade esteja contra isso. Quem sabe algum dia você não se torna um geneticista.

— Eu acho bem difícil — ri nervosamente. — As pessoas não se sentem confortáveis com a minha mera presença quando passam por mim no corredor. Imagine se elas tivessem de se sentar ao meu lado numa sala de aula. Seria desastroso.

— Se você diz... — deu de ombros, exatamente como eu fiz anteriormente, sorrindo de forma curiosamente acolhedora. — Tome cuidado ao atravessar a rua.

Me retirei da biblioteca, sentindo minhas mãos suarem pelo nervosismo. Eu mantinha o máximo de distância de ômegas, mas essa conversou comigo e ainda foi extremamente educada. Era no mínimo suspeito para não falar outra coisa e acabei considerando a possibilidade de ela ter fingido a gentileza para arranjar alguma forma de tentar me fazer ir preso com alguma acusação falsa ou algo do tipo. Foram raras as vezes em que demonstraram gentileza comigo, e eu sempre aprendi que o ideal era desconfiar de tudo e de todos. Eu estava sozinho, e precisava me prevenir. Ninguém era confiável.

Caminhando silenciosamente pelos corredores vazios da universidade, passei ao lado do laboratório de química e franzi a testa ao vê-lo com as luzes acesas. Esgueirei-me discretamente ao lado da porta e vi Hyungjo, o ômega de cheiro podre, debruçando-se sobre o balcão contendo frascos de diferentes misturas químicas e parecendo procurar uma em especial. Eu sabia que não tinha nada a ver com isso, então balancei a cabeça, ignorando o que vi e continuei meu trajeto até a sala dos alfas para pegar minha mochila. Lá eu guardava uma muda de roupa, alguns remédios, uma garrafa de água e suprimentos, caso precisasse. Troquei de roupa no banheiro dos alfas, vestindo minha calça jeans velha, camiseta e moletom azul, guardando meu uniforme cinza dentro da mochila.

Estava pronto para ir para casa. Avisei meu supervisor de que estava saindo e me encaminhei até a saída sul da universidade, a que ficava mais perto do quarto que eu aluguei. Para minha surpresa, vi o garoto com cheiro de macadâmia sair junto de mim e caminhando com a mochila nas costas até a saída enquanto falava animadamente no telefone com alguém, mantendo uma distância segura da minha pessoa. Dei de ombros, não me importando. Desde que eu seguisse com minha vida e ele ignorasse minha existência, não havia problema algum. Os seguranças da porta cumprimentaram o garoto com um acesso de cabeça quando ele passou, me fuzilando com os olhos logo em seguida ao notarem minha presença ali.

Nos afastamos da saída, indo para o portão principal e com isso, o garoto se dirigiu até o estacionamento deserto, indo em direção a seu carro, uma Mercedes preta, estacionado na parte mais afastada no lugar, destrancando a porta do veículo, enquanto eu seguia a pé para virar à esquina. Só não esperava ver o ômega fedido de mais cedo levantar-se sorrateiramente de trás de um carro na qual se escondia, claramente esperando, e aproximar-se do outro assim que ele desligou o telefone e o guardou na mochila, segurando-o pelas costas e pressionando um paninho branco com força contra seu rosto.

O rapaz de cabelos pretos se debateu violentamente, tentando se soltar, mas sua luta foi claramente em vão, pois alguns segundos depois, ele caiu no chão, parecendo desmaiado. Na mesma hora, Hyungjo o pegou no colo e correu em direção a um outro carro estacionado ali perto, provavelmente o seu próprio. Eu sabia que não devia fazer nada, o correto de acordo com o que me ensinaram a vida toda seria não fazer nada já que eu poderia acabar me dando mal e aquilo não era nada da minha conta, mas eu senti meu instinto protetor rugir dentro de mim com toda força novamente, em protesto. Eu não podia ver o ômega ser levado assim, não depois de tudo o que vi. Não podia deixar aquele ômega fedido feri-lo. Simplesmente não podia. Só Deus sabe o que ele faria com o garoto.

Então, sem pensar duas vezes, estufei o peito e corri até o agressor, lhe empurrando com força assim que ele colocou o garoto no banco de seu carro.

— O que você pensa que está fazendo, seu alfa lixo? — Indagou, extremamente surpreso e irritado. — Ninguém te chamou aqui, seu cão sarnento!

Ignorando a forma como meu interior se revirou pelo insulto, fiz algo que nunca pensei que faria na vida e que era terminantemente proibido: usei minha voz de alfa.

Sai da minha frente! — Rosnei e ele recuou um passo, claramente intimidado e me obedecendo na hora. Debrucei-me dentro de seu carro e tirei o outro ômega de lá, segurando-o cuidadosamente em meu colo. Vi que ele não estava totalmente desacordado, parecia meio zonzo, seus olhos abriam e fechavam o tempo todo. Virei-me para o agressor e rosnei mais uma vez. — Some daqui agora! Anda!

Sem hesitar e com os olhos cheios de medo pela minha imposição e voz, Hyungjo entrou no carro e deu partida, saindo do estacionamento na velocidade da luz, enquanto eu me mantinha ali, com o ômega semi-desfalecido em meus braços. O garoto, além de cheiroso, era muito bonito, observei. Seu cheiro atraente combinado com sua aparência provavelmente o faziam chamar atenção. O odor era tão gostoso que meu lobo agitou-se dentro de mim, indicando que aquele ômega era um "parceiro em potencial" e eu me escandalizei com isso. Meus instintos claramente não se adaptaram à nova realidade e as normas que eu devia seguir.

Isso não era nada bom. Eu precisava ficar longe dele, mas eu não podia deixar o garoto zonzo sozinho ali. Se eu o colocasse no carro, alguém poderia tirar proveito dele. Se eu o levasse até algum lugar para buscar ajuda, achariam que eu havia feito algo com ele e estaria mentindo para tentar me safar. Eu sabia como funcionavam as coisas por aqui, inclusive, fiz uma nota mental de evitar contato com qualquer pessoa, pois Hyungjo poderia me reconhecer na universidade e eu estaria ferrado. Logo eu que tanto me esforcei para andar de acordo com as regras, acabei burlando várias delas de uma única vez. Eu conhecia a lei e nenhuma das alternativas eram boas.

Logo eu que tanto tentava manter distância dos ômegas após tantos traumas. E isso era provavelmente porque meu lobo viu no garoto com cheiro de macadâmia, um possível parceiro, sendo que alfas e ômegas não podiam se relacionar, não importava o que nossas biologias queriam.

Então, fiz o que parecia menos pior para minha consciência maluca: o levei até meu quarto alugado, onde ele ficaria seguro até acordar, implorando aos céus para que ele me escutasse. Peguei a chave da Mercedes, trancando-a e guardei dentro de sua mochila. Como eu morava atrás da universidade, ele poderia acordar e voltar para casa sem maiores problemas no dia seguinte. Praticamente corri pelo estacionamento, vendo o garoto apagar de vez e cheguei no prédio, adentrando a porta principal e subindo as escadas até meu quarto o mais rápido possível para não atrair a atenção.

Graças a minha força avantajada, não foi difícil levá-lo comigo, e com cuidado, o deitei em minha cama. Não sabia muito bem o que fazer agora, apenas engoli em seco ao ver suas roupas e calçados de marcas caras completamente encharcados pela chuva. Eu ia me dar muito mal com isso, tinha certeza. Tirei seus sapatos e os coloquei ao lado de sua mochila no chão. O embrulhei com meu único cobertor, procurando mantê-lo agasalhado já que meu aquecedor era bem fraquinho, e como ômega, ele com certeza sentia mais frio que eu, só esperava que meu cheiro não ficasse tão forte em si.

Olhei em volta, procurando um lugar para dormir, então, pegando um lençol fino que eu tinha jogado ali, deitei no único tapete que ficava a frente da estante com minha pequena televisão, e com uma almofada como travesseiro, decidi tentar dormir, sentindo-me ansioso demais para conseguir tomar banho, ou comer, ou fazer qualquer outra coisa. Retirei meu moletom e o joguei num canto, esperando que ele secasse perto do aquecedor.

Acho que fiquei a noite toda em claro, pensando em tudo o que aconteceu e em como eu agi. Cochilei um pouco quando finalmente amanheceu, completamente exausto física e emocionalmente, preocupado demais com o dia seguinte, mas acho que meu parco sono não durou sequer trinta minutos, pois despertei quando um grito estridente me arrancou do mundo dos sonhos. Arregalei os olhos, completamente assustado e me levantei de mal jeito do chão, vendo o ômega em pé ao lado da cama e olhando em volta com uma expressão de pânico.

— Calma! Está tudo bem! Não aconteceu nada com você — tentei assegurar, dando um passo em sua direção com as mãos levantadas, mas os olhos do garoto dobraram de tamanho e ele se virou para a única mesinha que havia no quarto e pegou uma faca apoiada sobre um pote de manteiga, apontando-a para mim.

— F-Fica longe de mim, seu monstro! — Gritou, aterrorizado.

Franzi a testa, sentindo meu estômago revirar com a ofensa. Seria mentira se eu dissesse que aquilo não me machucou. Eu salvei a vida dele, eu não era um monstro. Levá-lo até ali foi a única escolha que eu tinha, embora soubesse que fosse errada.

— Não é o que você está pensando! Eu não fiz nada! Eu juro! — Exclamei, sentindo minha ansiedade atacar. Era justamente por isso que me ensinaram a vida toda que eu devia manter distância de ômegas. — Eu salvei você!

— Onde estou? Você me trouxe aqui? O que você fez comigo? — Olhou em volta, encarando a janela atrás de mim.

— Eu não fiz nada! — Repeti. — Seu amigo ômega tentou te apagar com clorofórmio, ele ia te sequestrar! Eu salvei você e sem saber o que fazer, eu te trouxe para cá. Você sabe que eles não iam acreditar em mim se eu levasse você desmaiado para um hospital, eles iam achar que eu fiz algo.

— Você o quê? — Indagou, incrédulo. — Isso é absurdo! Claro que ninguém ia acreditar numa falácia dessa! Você sabe até o produto que foi usado!

Passei as mãos por meus cabelos, minha ansiedade aumentando a cada segundo.

— Eu gosto de química e biologia. Eu sei de muita coisa. Vi seu amigo, aquele tal de Hyungjo, pegando algo no laboratório, mas eu não dei importância porque não era da minha conta, mas quando ele colocou um paninho no seu rosto e você desmaiou, ficou claro que era clorofórmio — tentei explicar, vendo ele me encarar de forma cética e debochada.

— Não acredito em você, onde estão minhas coisas? Você me roubou? — Me fuzilava com os olhos.

— Não! Estão ali. Eu não roubei nada, não sou um ladrão, nunca roubei nada — retorqui, cada vez mais chateado e ansioso.

— Eu não sei quem é você, vou chamar a polícia.

— O quê? — Arregalei os olhos, assustado. — Eu não fiz nada! Eu salvei você!

— Você é um alfa, eu não tenho motivo para acreditar em você. Você pode ser um psicopata mentiroso, a além disso, você me sequestrou — com a faca ainda erguida, foi até a mochila, apanhando o celular e discando o número da emergência sem tirar os olhos de mim.

Me mantive chocado demais, observando estático enquanto ele falava no telefone sobre um "alfa sequestrador e maníaco" que o estava mantendo em cárcere privado. Tia Nana sempre me dizia que eu não podia ir parar na prisão de forma alguma porque senão eu não sairia dali nunca mais. Ninguém pagaria minha fiança, e eu não teria como pagar por minha defesa por ser um alfa, sem contar que ninguém gostaria de defender um alfa na corte.

Não contive as lágrimas que começaram a cair de meus olhos. Por que ele não podia simplesmente acreditar em mim? Eu devia tê-lo deixado no carro mesmo, desacordado, à mercê de tudo e todos. Ou, devia não ter me intrometido e ter deixado Hyungjo levá-lo de qualquer forma. Isso provavelmente não estaria acontecendo se eu tivesse sido prudente ao invés de ter sido "herói".

Sem me importar, sentei no chão encostando as costas contra a parede e abracei minhas pernas, tentando chorar o mais silenciosamente que eu consegui. Não adiantava fugir, senão eu ia ser considerado como fugitivo e isso poderia ser usado contra mim. Eu ia ser preso, perder meu emprego e passar o resto da minha vida atrás das grades. Tudo porque eu fui estúpido demais.

Menos de três minutos depois, ouvi o som das viaturas se aproximando e dos policiais descendo dos carros. Eles invadiram o prédio mais rápido do que imaginei, indo de quarto em quarto, até arrombarem a minha porta. Ouvi vozes dos homens perguntando algo e logo, senti dois braços me erguendo do chão com brutalidade. Tomei um soco no estômago e quase caí de joelhos, sendo impedido pelos policiais que me seguravam.

— Isso é apenas para você aprender, seu alfa nojento — o policial ômega que fizera isso falou, cuspindo em meu rosto em seguida. — Seu tipo ainda não aprendeu. Mesmo depois de tanto tempo, vocês ainda não aprenderam. Você achou que iria se safar com isso?

Não respondi, abaixando minha cabeça. Não adiantava que eu tentasse me explicar, eles não acreditariam em uma palavra sequer e tudo que eu falasse poderia ser usado contra mim de forma suja.

— Pare de chorar, seu merda! Você faz a coisa e depois chora? — Berrou no pé de meu ouvido.

Meu lobo se debatia dentro de mim, furioso, exigindo que eu revidasse, que eu usasse minha voz, que eu me libertasse e lutasse, mas eu não queria. Era uma lição. Aprendi a vida toda que existiam limites para nós alfas, e eu ignorei cada um deles noite passada. Eu aceitaria o preço da minha estupidez.

Sem aguardar uma resposta, os policiais me arrastaram para fora do quarto e me jogaram dentro do camburão, algemando minhas mãos.

[...]

Passaram-se três dias desde o incidente.

Era uma terça-feira e eu me encontrava deitado sobre a cama de minha cela, fitando o teto. Meu "crime" fora considerado gravíssimo em comparação aos outros alfas da prisão, pois constataram que eu havia "sequestrado" Jeongguk para me aproveitar dele, o que era pior ainda. Descobri que esse era o nome dele, Jeon Jeongguk, neto de um dos magnatas mais importantes da Coreia do Sul. Não bastou eu ter me fodido, acabei me fodendo com as "piores" pessoas possíveis. Eu sabia que provavelmente ia morrer na prisão àquele ponto, não com gente tão poderosa envolvida.

E para melhorar minha situação, fiquei sozinho numa cela. Os outros presos dividiam celas, mas como eu cometi um crime "imperdoável", fui colocado na solitária, uma espécie de forma de me punir mais ainda. Ali havia uma privada e uma pia além da cama, e eu via ratos e baratas correndo pelo chão. Era nojento e insalubre, exatamente o que eles queriam. Para comer, me deram pão e eu precisava beber água da pia, agradecendo por ela estar límpida.

Já começava a imaginar como seria minha "vida" na prisão. Será que os presos tinham direito a ler livros? Eu provavelmente não receberia esse benefício graças a meu status como "O Preso Desgraçado". Não chorei depois daquele dia. Me recusei a derramar mais uma única lágrima que fosse. Se eu tinha algum pingo de orgulho a manter, eu não deixaria que eles me vissem tão fraco. Já não bastava que eu estava usando a mesma roupa desde sexta à noite, que eu comia pão velho e estava preso numa cela fétida e infestada de pragas.

A única e minúscula janela que havia na parte superior da cela me informava que era tarde, já que o sol estava brilhando como nunca. E foi nesse exato momento que ouvi minha cela ser aberta e os guardas escancararem a porta de metal. Estranhei, até porque não estava na hora de nenhuma refeição, no entanto resolvi ignorar.

— Levanta, garoto. Você está livre — o guarda murmurou, a voz grave.

Virei a cabeça em sua direção e franzi a testa.

— O quê? — Livre? Quem diabos me libertou?

— Isso mesmo que você ouviu. Você está livre, retiraram todas as acusações contra você — contou, impaciente.

Desconfiado, levantei-me da cama e caminhei até a saída da solitária. Para minha surpresa, ao lado da porta se encontravam mais três pessoas: um homem de cabelos grisalhos que segurava uma maleta, outro homem que estava em sua meia idade, ambos usando ternos e Jeongguk. O maldito ômega com cheiro de macadâmia. Os dois primeiros me observavam de forma séria enquanto que o mais novo se recusava a me encarar, parecendo envergonhado, mexendo os dedos nervosamente. Mas, isso não importava para mim, eu estava verdadeiramente puto com aquele garoto ainda e não queria ver sua cara de novo.

Cruzei os braços, o rosto implacável.

— Então — o homem de cabelos grisalhos pigarreou. — É um prazer conhecê-lo, Sr. Kim. Eu sou o Advogado Park, encarregado de cuidar dos assuntos e bens da família Jeon. Como você sabe, dias atrás houve a acusação de sequestro contra o senhor, o que ocasionou em sua prisão.

O beta parecia desconfortável por estar falando comigo estando tão perto. Eu tinha certeza que estava fedendo e mesmo sem querer, liberava um pouco da minha presença, de forma bem sutil, porque naquele momento, eu estava verdadeiramente irritado.

— Bem, acontece que ontem, um dos colegas de classe do Sr. Jeon mais novo acabou por comentar sobre como o plano dele de sequestro deu errado graças a um alfa, e contando com o testemunho da bibliotecária da universidade, a Sra. Choi, que presenciou a discussão entre o Sr. Jeon e o acusado na biblioteca anteriormente, descobrimos que o senhor é na verdade inocente de uma parte das acusações. Fomos capazes de coletar as imagens do laboratório onde mostra o rapaz pegando a substância para usá-la contra o Sr. Jeon, e o exame de corpo de delito não demonstrou qualquer tipo de agressão contra ele após ser retirado de sua casa. — O advogado continuou. — Então, hoje vim com o Sr. Jeon pai e seu filho, Jeongguk, para retirar formalmente as acusações contra o senhor em agradecimento por ter feito uma boa ação e propor um acordo que possa recompensá-lo como pedido de desculpas pelo inconveniente e por seus esforços em salvar a vida do Sr. Jeon contra as intenções maliciosas de seu colega.

— Ah, então, agora ele acredita em mim — resmunguei sem olhar na direção de Jeongguk. Eu realmente não suportava a vista daquele ômega, não importando o quanto meu lobo gostava do cheiro dele. — Teria sido melhor se tivesse acreditado antes de chamar a polícia, eu levar um soco, ser cuspido na cara e ser jogado numa cela fétida.

O guarda, o advogado, o Sr. Jeon e Jeongguk pareceram extremamente desconfortáveis com o que falei. Ótimo. Essa era a intenção.

— Nós vamos te recompensar por tudo isso — o Sr. Jeon afirmou, levantando o queixo. — Nossa família tem dinheiro, garoto. Podemos simplesmente assinar um acordo e você esquece disso?

Revirei os olhos.

— Você acha que eu vou te processar? — Dei uma risada sem humor. — Não se preocupe, eu quero o máximo de distância de você, da sua família e do seu dinheiro. E o que vocês podem fazer para "recompensar" essa merda toda que aconteceu, é me deixando em paz.

Dito isso, passei por eles e comecei a caminhar pelo corredor, procurando a mesma porta por onde eu havia entrado quando cheguei ali, o guarda esbaforido seguindo meus passos para me acompanhar.

— Você não pode falar dessa forma desrespeitosa conosco, garoto! — O Sr. Jeon reclamou, irritado.

Possesso ao ouvir aquilo, me virei para encará-los brevemente.

— Eu salvei a vida do seu filho e vim parar na prisão. O que diabos você esperava? Que eu agradecesse você por me tirar daqui? — Questionei, arqueando uma sobrancelha. — Nada disso teria acontecido se eu não tivesse feito nada, se eu tivesse ficado na minha e deixado o ômega fedido levar o seu filho. Nada!

E continuei a caminhar para fora dali.