Nightmare before halloween - capítulo final!



Meu olhar intercalava entre as figuras obscuras de Paulo e Drica. Estava claro para mim que a insistência dele em querer me trazer nessa boate justo hoje não fora uma mera coincidência ou simplesmente azar.


E sinceramente, também estava claro que ninguém ali precisava ser um gênio para sacar o que eles queriam de tão óbvio que era.


E o que quer que fosse que esses dois estivessem planejando, não parecia ser nada bom.


— E o que faz você pensar que nós aceitaremos ficar presos aqui? — indagou um negro alto e forte ao lado de Meg.


Paulo sorriu e deu de ombros.


— Se quiserem sair daqui com vida — respondeu, simplesmente.


Ele estava blefando. Não teriam tido todo aquele trabalho apenas para nos matar.


— Vocês são maníacos! Olhem para os corpos dessas pessoas inocentes! Olhem em volta o que vocês fizeram com esse lugar! — exclamou Meg, indignada.


Revirando os olhos, Paulo cruzou os braços. Era incrível a forma como ele estava ignorando a própria namorada como se ela fosse uma criança.


— Esquecendo o pequeno showzinho feito por minha querida namorada, serei claro quanto ao porquê de vocês estarem aqui — replicou.


Antes que ele pudesse começar, me desvencilhei de Malu e manquei, passando por todos até chegar à frente do grupo. Queria que Paulo me visse, e o mesmo me enviou um olhar questionador, mas não falou nada, esperando que eu começasse.


— Eu sinceramente acho que ninguém precisa ouvir um monólogo para saber o que está havendo aqui — afirmei, acidamente —, isso está parecendo um daqueles filmes de terror. E a minha resposta é não.


Paulo me fuzilou com os olhos e descruzou os braços. Sua expressão não estava nada amigável.


— O que você acha que sabe, Eduardo? — questionou, grosseiramente.


— Vocês dois são parte do grupo dessas criaturas horríveis, e provavelmente estão querendo que nós nos juntemos a vocês — respondi.


Drica riu e ergueu os braços, batendo palmas pausadamente.


— Sempre soube que você é diferenciado dos outros, Edu — comentou —, não é à toa que eu me interessei por você.


Suspirei, segurando para não revirar os olhos. Ela volta com aquele assunto até naquele momento crucial?


— Vocês mataram muitos de nosso grupo, e nem por isso estamos reclamando — retrucou Paulo —, a proposta é simples. Nós selecionamos cada um de vocês durante essa noite porque são claramente os mais fortes. Queremos que se tornem um de nós, e com isso, terão força sobre-humana, muitas riquezas, e em troca, vocês só precisam atrair mais pessoas para a nossa causa.


Era isso? Eu esperava algo mais obscuro (não que a "causa" deles já não parecesse obscura).


— Que seria? — indagou outro cara.


— Nosso objetivo é acabar com as pessoas que estão contribuindo com o caos em nosso planeta — contou —, para quê um mundo multicultural? Para quê pequenos povos e comunidades? Não precisamos proteger culturas inúteis que não nos trazem nada além de problemas e instabilidade. Queremos limpar o mundo dessas escórias.


Ele falara como se fosse a coisa mais simples e lógica da história da humanidade.


— Vocês querem promover um genocídio gratuito? — indaguei, pasmo —, nada nessa causa faz sentido.


A minha resposta fora tão rápida e tão sincera, que enfureceu Paulo.


— Eu te escolhi, Edu. Eu te trouxe aqui porque sabia que você poderia ser um membro valioso — afirmou — Existem culturas superiores. Existem pessoas superiores. Nós somos superiores — guinchou —, aceitem isso e juntem-se a nós, ou morram.


Um silêncio mortal se instalou entre nosso grupo.


Acho que estavam todos se perguntando quem teria coragem de "ir" primeiro. Eu já tinha decidido que não ia aceitar essa loucura. Esse plano de exterminar minorias. Pensamento bem ditatorial, esse.


Porém, para a minha completa surpresa, a primeira pessoa a se voluntariar foi Malu!


O quê...?


— Eu aceito fazer parte — deu um passo a frente e caminhou em direção a Paulo — melhor aceitar do que morrer.


Eu simplesmente não consegui acreditar no que estava vendo.


— Então, quer dizer que é melhor se tornar um monstro asqueroso ao invés de resistir e tentar lutar? — argumentei.


Ela só podia estar fora de si, ou maluca (ou os dois) para realmente cogitar aceitar aquela proposta distópica. Mas não obtive resposta por parte de Malu - não que eu esperasse uma -, enquanto se aproximou de Paulo sem medo aparente.


A forma como ela conseguiu tomar aquela decisão tão facilmente tanto me impressionou quanto me chocou.


Quando ela se aproximou de Paulo, o mesmo passou o braço em sua cintura e a chegou para perto de si, dando um sorriso satisfeito e cheirando o cabelo dela.


A namorada dele estava bem ali! E ele estava abraçando outra garota da mesma forma íntima como a abraçava!


— Mais alguém? — perguntou, cínico.


Depois daquilo, eu realmente acreditava que qualquer outra pessoa podia se voluntariar, mas antes que alguém desse um pio, Meg jogou o pedaço de madeira que ela mantinha na mão com força no chão e marchou para à direita de nosso grupo.


Todos a observavam curiosamente, tentando adivinhar o que ela estava tramando.


— Margarida, minha querida e doce namorada — murmurou Paulo — não adianta tentar fazer nada. Você sabe que posso rasgar a sua garganta em menos de um minuto, não sabe, meu bem?


O tom dele me irritou.


— Seu babaca, como ousa falar com ela desse jeito? — indaguei.


Eu não sabia se estava puto com ele por simplesmente ignorar que ela tinha sido sua namorada pelos últimos dois anos. Ou pela pura falta de respeito que ele estava demonstrando descaradamente.


Mas, para nossa surpresa, Meg chegou até uma superfície alta, e apalpou uma máquina gigantesca presente ali.


— Querida, já te falei que nenhum truque vai funcionar...


Só que o truque dela funcionou. A máquina ligou e começou a jorrar espuma por toda a pista de dança.


Caralho, eu sequer sabia que tinha uma máquina de fazer espuma aqui!


Não tinha ideia de que tipo de ideia maluca era aquela (provavelmente devia ser uma ajuda para que conseguíssemos escapar, ou algo assim).


Rapidamente, a espuma ficou espessa e encheu toda boate, impedindo Paulo e Drica de nos ver enquanto nos afastávamos, mas também nos impediu de vê-los. Um grito feminino estridente encheu o ar juntamente com a música eletrônica vindo da direção em que tinham estado Paulo e Drica, enquanto nosso pequeno grupo de sobreviventes rumava em direção aos banheiros para tentar se esconder já que não tínhamos como escapar.


Revirei os olhos com a insistência irritante das músicas que não paravam de tocar. E naquele momento começava a tocar L'Amour Toujours do Gigi D'Agostino. Não precisei do meu irmão para conhecer essa música. Era tão famosa que eu já ouvia e curtia por conta própria.


O cara negro e forte que questionara Paulo se juntou a mim enquanto me refugiei atrás do bar ao invés de ir até os banheiros como os outros. Aquele bar era meu refúgio "since I was born" praticamente.


Acabei perguntando seu nome. Gustavo.


Eu não tinha visto Meg desde que ela causou o tumulto com a máquina de espuma, e estava preocupado. Ela estava bem? Tinha corrido e se escondido junto com os outros.


Porém, ouvimos mais gritos, porém, dessa vez eles vinham claramente dos banheiros. E me fizeram gelar.


Xingando dezenas de palavrões mentalmente, tive uma ideia.


Apanhei duas garrafas de vodca pura e as abri. Peguei minha camiseta pólo já em frangalhos e rasguei duas tirar de pano, colocando-os dentro do bico das garrafas. O plano era fazer um molotov.


Pedi para Gustavo procurar por qualquer coisa que pudesse fazer fogo, mas por pura cagada, o cara era fumante e tinha um isqueiro no bolso.


Acendi as duas garrafas e saí de trás do bar, já esperando que um daqueles bichos aparecesse. Não me equivoquei quanto ao plano. Apareceram dois, e sem hesitação joguei os molotovs. Ambos começaram a rosnar e a pegar fogo em meio a espuma, cambaleando.


No fim, dera milagrosamente certo. Obrigado, filmes de ação!


Gustavo se juntou a mim fora do bar, e eu olhei em volta.


Não conseguia enxergar direito por causa da espuma.


Não tinha saída. Não tinha o que fazer.