Graxas e Bandanas - C.1 - A Oficina dos O'Reilly

Oiii! Tudo bem com vocês? O que acharam do prólogo? Gostaram? Eu quero muito saber a opinião de vocês! Espero que estejam gostando e que gostem AINDA MAIS de tudo o que nesse capítulo que irão ler agora! Sério, eu me empolguei muito escrevendo ele, está sensacional!

Eu to amando completamente editar essa história!

Não deixem de votar no capítulo e deixar um comentário , saibam que isso anima demais <3



Capítulo 1- A Oficina dos O’Reilly


Birdwhistle, Inglaterra

16 de agosto de 2022


A música tocava muito alto no fone de ouvido preto que estava encaixado nas duas orelhas de Aaron. O som alto da bateria de uma das músicas do Pink Floyd estava tirando-o daquela realidade que estava vivendo, e talvez por isso a comissária do trem em que Aaron estava, precisou chamá-lo em um tom mais alto que o normal após cutucá-lo suavemente no ombro, anunciando a chegada do trem até o ponto final da estação.

Bem naquela cidade bem desconhecida por quase todos os britânicos.

Aaron retirou os objetos das orelhas assim que olhou para a mulher e entendeu o que estava acontecendo. Sorriu para ela, já percebendo que era o único naquele vagão que antes estava levando outras quinze pessoas.

— Me desculpa! — Aaron falou rapidamente e abriu um curto sorriso enquanto levantava-se do banco cinza acolchoado. Pegou sua mochila, a grande mala de mão e uma menor também que estava levando consigo, bem ao seu lado durante toda aquela viagem. Tudo o que tinha estava ali, e não iria correr o risco de perder qualquer dos poucos pertences que lhes restara.

Saiu do trem de maneira calma, saiu da estação ignorando qualquer oferta de táxi. Ignorou os olhares tortos e focou somente em encontrar a rodoviária de ônibus mais próxima que o levaria até uma pequena cidade a norte de Rochester e a oeste de Sheerness, pequena e invisível demais chamada Birdwhistle.

Um local calmo, praticamente oculto ou até mesmo ignorado por alguns ingleses, que não tinha praticamente nada de interessante por aquela terra que não fosse a vista bonita de algumas montanhas que às vezes atraíam algumas pessoas.

O povo do local vivia completamente em seu próprio mundo, parecendo até mesmo se tratar de algum outro minúsculo país dentro da Inglaterra, recebendo apelidos como “o Vaticano do Reino Unido”. Mas Aaron não se importava muito com aquilo, para ele era muito perfeito desde que não lhe causasse nenhum estresse. Birdwhistle era exatamente o que buscava para fugir de toda a tensão e agito da vida em que tinha posto um ponto final.

Durante todo o trajeto do ônibus, Aaron fez exatamente a mesma coisa que havia feito quando estava no trem; colocou seus fones de ouvido e grudou a lateral da cabeça na janela, observando todo o local até que seus olhos se fechassem por vontade própria e alguém precisasse acordá-lo novamente para que ele precisasse sair já que era a última parada do ônibus.

Estava cansado, entendia e sabia daquilo. Mas não era como se Aaron pudesse mudar alguma coisa. Seu foco estava em chegar logo em Birdwhistle e estabelecer sua nova vida de forma simples. Ainda assim, Aaron sabia que seria um pouco complicado. Ele entendia bem que poderia haver preconceito em cidades pequenas e tão isoladas daquele jeito. E Aaron não tinha nada do que precisava para firmar sua aparência como típico britânico.

Seus traços japoneses eram fortes, haviam várias tatuagens pelo seu corpo, era alto. Falava bem inglês, nasceu e cresceu na Inglaterra, mais precisamente em Bakewell, mas logo no seu primeiro ano de vida mudou-se para Manchester e depois Londres, onde se estabeleceu até meados de sua adolescência e então passou a não ter lugar fixo de moradia.

E, talvez a todas aquelas mudanças, Aaron acreditava que aquilo havia traçado parte de sua personalidade de algum jeito, deixando-o mais fechado para novas pessoas, já que sempre conheceu inúmeras delas, dos mais diversos tipos, abrindo seus olhos para as milhares de possibilidades que elas podiam ter. Mas ainda assim Aaron se fechava, as observava bem, julgava conseguir compreendê-las melhor do que grande parte das pessoas.

Ainda assim, não chegava a ser uma grande preocupação a forma como alguns dos passageiros ou até mesmo moradores de Birdwhistle poderiam lhe enxergar e falar de si.

Mesmo que estivesse mudando, a visão que a maioria das pessoas tinham por tatuagens era negativa, Aaron sabia muito bem disso. Faziam ligação com criminalidade, a mau caráter… Atitudes explícitas de confronto contra injustiças sociais ou militares tornava a pessoa “aterrorizante”. Até mesmo ter um passado ruim e perigoso de certa forma, ou ter um dos pais que fez merda no passado já faziam ser exemplos que tornavam a pessoa “não qualificada” para se ter alguma relação, não importando qual fosse…

Para muitos, Aaron era um exemplo claro que vários não iriam querer chegar perto, que ninguém iria contratar para trabalhar, e Aaron sabia mesmo disso, já havia mesmo passado por isso algumas vezes.

Mas ao mesmo tempo, Aaron não poderia estar se importando menos já que conhecia o próprio caráter e suas qualidades. Aaron tinha orgulho de ter tudo aquilo descrevendo sua vida, bom, exceto o pai extremamente alcoólatra e abusivo que teve. De resto, Aaron não se importava nem um pouco com os comentários que faziam sobre si, ou os pensamentos que os olhos de todos transmitiam assim que observavam Aaron passar.

O rapaz poderia ser, e ainda descrevia a si mesmo, como um grande foda-se ambulante e Aaron tinha até certo orgulho daquilo.

O rapaz caminhou por todo o trajeto assim que o ônibus parou e Aaron desceu, já deparando-se com as ruas limpas, alguns cachorros correndo pela calçada logo na entrada da cidade.

Havia uma placa de mármore mostrando o nome da cidade em um tom vermelho vivo, algumas pinturas da bandeira britânica ao lado e abaixo o nome de alguns pouquíssimos pontos turísticos que havia em Birdwhistle para serem visitados.

Nenhum chegou a interessar Aaron.

Adentrou na cidade observando as poucas lojinhas que faziam presença para atrair turistas e fazê-los comprar as bugigangas ali vendidas.

Haviam pessoas velhas andando acompanhadas por outras pessoas velhas, carregando bolsas ecológicas cheias de vegetais dentro, trocando conversas bem animadas e cheias de fofoca uma com as outras.

Aaron não se preocupou muito com os olhares curiosos que já começava a receber dessas mesmas pessoas. Com a mochila cheia nas costas, e as duas malas de mãos em uma palma só já que a sua outra segurava o pequeno mapa que conseguiu na estação rodoviária, Aaron caminhava com suas botas pretas e cadarço desamarrado enquanto prestava toda a sua atenção nas ruas para procurar um dos pequenos hotéis recomendados para poder passar ao menos os primeiros dias enquanto não via um lugar permanentemente para se estabelecer.

Aaron soltou um pequeno suspiro quando virou a primeira esquina daquela rua comprida e se deparou com algumas poucas crianças brincando de pular corda no meio da rua que não mostrava indício algum de que carro iria passar por ali. As crianças estavam completamente escondidas debaixo dos grandes casacos, calças, toucas e cachecóis compridos que chegavam aos joelhos deles.

Estavam bem no fim do verão, próximo do início do outono embora os ventos que sopravam ali fossem gélidos como os do inverno. Entretanto, parecia um total exagero que elas estivessem vestidas de tal forma, não estava um frio absurdo para que as crianças fossem agasalhadas assim.

— Nem está tão frio assim, essas crianças devem estar suando ali dentro — Aaron resmungou baixo, somente para si mesmo ao passar por todos os pequeninos com sorrisos largos no rosto.

Prosseguiu caminhando até chegar no que parecia ser a praça principal daquela cidade cheia de ruas pequenas e muitas árvores ao redor. A praça era um espaço absurdamente largo que continha uma fonte no centro, cercado por alguns bancos e mesas já prontas para se jogar xadrez ou dama.

Logo à primeira vista, era possível identificar a delegacia, a biblioteca com um prédio de estrutura mediana, uma creche fechada, algumas casas simples, várias lojas de roupas e muitos mais locais que Aaron notou com apenas uma passada rápida de olho. Tudo era muito próximo, e simples, parecendo que aquele era realmente o grande centro da cidade, o que poderia facilitar muito a vida dos moradores, mas também parecia tudo exposto demais para Aaron.

Qualquer um que prestasse um pouco de atenção poderia saber de sua rotina. Saber tudo o que estava fazendo somente por sentar naquela praça e ficar observando ao redor.

Enquanto observava, Aaron decidiu não ficar ali somente parado, voltou a caminhar até virar uma das esquinas e ficar bem de frente para um hotel.

HOTEL DOS CARTER

“Um local onde seu descanso é assegurado, e o respeito e a decência prevalecem.”

Quartos vagos! Atendemos 24 horas!


Aaron torceu o rosto pelo teor bem antiquado da frase principal daquele letreiro que deveria ser convidativo. Mas não iria reclamar, aquilo seria bem melhor do que dormir no chão da rua, ou em algum banco daquela praça.

Foi até a porta e entrou no local, atravessou o saguão de tamanho médio com dois sofás no canto e um tapete bem limpo no centro e foi até o balcão de madeira, dando de cara com uma mulher sorridente que mostrou ainda mais os dentes em sua boca ao olhar para o rosto de Aaron.

Toda sua face parecia animada e pronta para recepcioná-lo, e então os olhos azuis da mulher encararam bem mais atentamente o rosto do rapaz a sua frente, um rosto bem visível graças a bandana vermelha que tirava os fios pretos e compridos dos olhos escuros. Devido a isso, a expressão da mulher começou a mudar gradativamente quando terminou de analisá-lo por inteiro.

Era como se pelo olhar dela, Aaron entendesse que Emily o estava vendo como “encrenca”, e por perceber que Aaron havia entendido o que ela estava fazendo, a postura da mulher logo voltou ao normal.

Deveria querer fugir de problemas.

— Boa tarde, senhor! O senhor deseja se hospedar conosco aqui no Hotel dos Carter? — A mulher perguntou balançando a cabeça como um robô perfeitamente programado.

— Sim, por duas noites — Aaron respondeu sério, colocando as malas de mão no chão enquanto tirava a mochila das costas e começava a abrí-la para pegar a carteira que continha mais dinheiro do que tinha nos bolsos, e também os documentos que achava ser necessário apresentar. — Quando as duas noites passarem, eu posso pagar por mais depois caso eu queira, não é?

Aaron levantou o olhar rapidamente, passando os olhos no crachá que estava preso no busto da mulher; Sophia Carter.

— É claro, senhor! — A mulher respondeu e balançou a cabeça positivamente. — Se ainda tivermos vagas e o senhor não tiver descumprido nenhuma regra durante sua estadia aqui, o senhor será muito bem vindo a se hospedar conosco outra vez.

— Entendi — foi a única coisa que Aaron conseguiu dizer em voz alta. — Aqui está o meu documento que prova que minha maioridade e-

— O senhor, tendo mais de vinte anos, está tudo bem. Aqui na cidade o delegado determinou que a maioridade é acima dos vinte anos, tanto para beber, quanto para dirigir — a mulher explicou com um sopro de voz. Não parecia estar incomodada com aquela regra ou se lamentando de algum jeito. Ela estranhamente parecia muito conformada e submissa àquilo.

— E esse delegado pode fazer isso? — Aaron questionou curioso, inclinando-se um pouco no balcão para se aproximar dela à medida que a voz da mulher parecia sair cada vez mais baixa ao lhe revelar aquelas coisas, como se estivesse contando um segredo bem sigiloso.

— O prefeito permite que ele faça — Sophia respondeu simplista, totalmente robotizada.

— Entendi… E você é sempre assim, ou é apenas para esse serviço que você faz? — Aaron ergueu uma das sobrancelhas para pegar o dinheiro dentro da carteira, olhando outra vez para a mulher, vendo-a ficar desconcertada e surpresa com o comentário. — É somente uma brincadeira, relaxa — soltou um pequeno suspiro. — Quanto é a diária mesmo?

— A-ah, bom… A diária é — piscava freneticamente, parecia que estava dando algum pane no sistema. — São onze Libras Esterlinas por noite, senhor. Mas sem o café da manhã e almoço incluídos. Se o senhor quiser o pacote refeição fica dezoito Libras Esterlinas por noite, senhor.

— Aqui — Aaron entregou vinte e duas Libras Esterlinas. — Não vou querer pacote nenhum, não. Só vou estar aqui para dormir — guardou a carteira. — Aliás, você sabe de algum local aqui que esteja precisando de algum funcionário?

A mulher arregalou um pouco os olhos, talvez assustando-se por concluir que Aaron não seria apenas um simples turista passando por ali. Aparentemente tal desconhecido tinha grandes pretensões de residir em Birdwhistle.

— Ah, bom, eu — abaixou a cabeça, pensativa. Os sorrisos largos de anteriormente nem apareciam mais, era como se Sophia fosse completamente outra pessoa. — Eu acho que na Padaria dos Henderson estão precisando de alguém no turno da noite, ou a Oficina dos O’Reilly também costumam contratar — entregou a chave do quarto, número 18, para ele.

— Hum… Obrigado — curvou-se de forma um pouco desleixada, voltando a colocar a mochila nos ombros. Pegou as malas no chão e começou a caminhar até o quarto que continha na porta o mesmo número que a chave em suas mãos. — Ah! — Voltou rapidamente para o balcão. — Essa Oficina fica muito longe daqui? — Perguntou olhando nos olhos da garota.

— Fica do outro lado da praça, senhor, depois de uma casa verde, é bem ao lado! — Sophia respondeu rapidamente. Aaron balançou a cabeça positivamente para confirmar a informação e voltou a caminhar em direção ao quarto, subiu as curtas escadas até o andar do quarto que seria seu pelos próximos dois dias.


[...]


Assim que jogou a toalha molhada em cima da cômoda depois de tê-la esfregado em seu cabelo, Aaron caminhou nu até a mala de mão maior que estava aberta em cima da cama. Pegou uma cueca boxer preta e a vestiu.

Em seguida, Aaron olhou para o próprio corpo através do reflexo de um dos espelhos presos na parede. Aquele pegava apenas metade do seu corpo, da cintura para cima para ser mais exato.

Aaron olhou-se a princípio, sem estar se admirando. Olhou-se apenas intensamente para encarar o próprio corpo. Observou a barriga que tinha, nem tão definida quanto nos dias que ainda estava na escola. Olhou para seu próprio rosto, algumas marcas fracas de espinhas antigas que ficaram eternizadas em sua pele amarela. Aaron encarou os olhos escuros que carregavam suas origens, a pequena cicatriz que tinha na ponta do queixo, o cabelo preto molhado com os fios jogados para todos os lados.

Aaron encarou os olhos, as cicatrizes que tinha por todo o corpo. Cada uma contando uma história, com uma lembrança que estaria para sempre na sua mente, Aaron sabia bem daquilo.

E então, Aaron olhou para as tatuagens que tinha. Encarou com atenção a cobra desenhada pela lateral direita de seu corpo, cuja boca aberta até mesmo possuía o detalhe do veneno saindo de uma das presas. Olhou para a caveira que havia ao lado do animal bem desenhado. Subindo, e talvez pegando seus ombros, havia diversas espirais desenhadas que se encaminhavam para o pescoço do rapaz e então transformavam-se em rachaduras pretas que se ligavam até a rosa negra de tamanho médio que enfeitava o lado direito de seu pescoço.

Mais espirais, que formavam delicadas pétalas de flores, continuavam pelo seu pescoço, linhas finas que chegavam até quase o outro ombro, onde um pouco acima, quase em sua mandíbula, havia o número 16 desenhado eternamente.

Na parte esquerda de seu corpo, bem em cima das costelas, havia o desenho de um prendedor de sonhos feito de ossos.

Aaron também tinha tatuagens em ambas as panturrilhas grossas. Na direita havia uma gaiola vermelha aberta com alguns respingos pretos do que poderia ser tinta, e na esquerda a marca perfeita do que seria a pata de um lobo, mas possuindo o rosto do animal ali com a legenda “A lonely alpha just fuck” bem abaixo escrita com sua própria caligrafia, que havia feito em um guardanapo em cima da mesa do tatuador.

Na lateral da coxa direita havia uma faca matando um escorpião.

Aaron amava cada uma das tatuagens que tinha e todos os seus significados, as importâncias grandes, medianas e baixas que elas tinham ao próprio modo.

Contudo, por mais que Aaron as amasse, escondeu-as quando vestiu a calça jeans azul com rasgo nos joelhos. Pegou uma das regatas pretas e a vestiu também, logo esticou seu corpo para alcançar um moletom preto grande que também estava na sua mala e tinha a intenção de usar naquele momento. Colocou-o por cima da regata e então esfregou os fios de cabelo úmidos, bagunçando-os sem nenhum propósito.

Começou a procurar uma de suas bandanas branca e preta, achou-a e colocou-a na cabeça no mesmo segundo. Calçou a mesma bota com cadarços desamarrados que usava anteriormente.

Guardou a chave do quarto em um dos bolsos de trás da calça, e no outro guardou a carteira e o celular. Estava pronto para sair caminhando em rumo a tal Oficina dos O’Reilly.

Precisava logo arranjar mais dinheiro para poder se sustentar ali.

Aaron não estava falido e altamente necessitado de grana, porém a ideia de já gastar tudo o que tinha guardado antes de acabar com sua outra vida era um pouco preocupante. Toda a renda fácil que tinha antes, havia desaparecido com um estalar de dedos.

Aaron tinha o suficiente para estar confortável pelos próximos dias, mas boa parte da questão que impedia Aaron de relaxar, era simplesmente odiar o fato de não fazer nada. Detestava ficar deitado sem fazer alguma coisa, seu corpo estava acostumado com muita ação, com muita rotina cercada de adrenalina. Precisava sempre estar fazendo algo.

Aaron gostava de ocupar sua mente e quebrar a cabeça durante o dia. Aquilo na verdade nem lhe deixava estressado, era como uma terapia relaxante demais.

Olhou-se no espelho outra vez antes de sair do quarto definitivamente, estava com leves olheiras. Precisava dormir.

Mas não naquele momento. Ajeitou o moletom outra vez e mexeu levemente na bandana presa em sua cabeça, caminhando para fora do quarto. Saiu do hotel de forma apressada, nem mesmo virando a cara para ver a balconista que havia lhe atendido mais cedo, apenas caminhou até onde a garota havia sugerido, a tal Oficina dos O’Reilly.

Aaron torcia para que fosse um local bom, não qualquer espaço aberto com poucas ferramentas. Queria poder trabalhar em um local bom de verdade, e queria desesperadamente que houvesse vaga de emprego ali. Qualquer que surgisse ali, nem que fosse para limpar o chão sujo de óleo e graxa, Aaron aceitaria, iria adorar fazer desde que pudesse estar perto dos carros.

Amava carros e motos, e sabia que caso realmente começasse a trabalhar somente limpando o chão, poderia crescer ali dentro, poderia mostrar que entendia dos assuntos mecânicos, poderia exibir todo o valor que tinha e então ser um mecânico fixo na oficina.

Isso é claro, se realmente houvesse alguma vaga ali.

Aaron passou pela praça sem muita preocupação embora estivesse desejando bastante estar com os fones de ouvido que deixou no quarto do hotel. Mas também tinha total consciência de que ir procurar emprego com fone de ouvido preso no pescoço, ou pior, nos ouvidos, não era nenhum pouco vantajoso.

Aaron tentava se mostrar apresentável, mesmo que tivesse a certeza de que estava falhando naquilo já que nem mesmo um perfume havia passado, ou sequer penteado o cabelo apropriadamente.

Aaron estava apenas vestido. Mas grande parte da culpa não era sua de fato.

Todas as suas roupas antigas, as vestes caras e de marcas famosas que possuía, tinham ficado completamente no passado. Deveria conquistar tudo do zero.

Aaron passou pela fonte, que naquele momento estava desligada devido a um homem lá dentro parecendo estar limpando o local, e seguiu em direção para o outro lado da praça como havia sido instruído a fazer. Procurou atentamente por uma casa verde, mas a praça, que se consistia em ser um grande círculo, dava a entrada para vários becos e ruas igual a que Aaron tinha usado para entrar e chegar até o pequeno centro daquela cidade.

De qualquer forma, caso não encontrasse, bastaria perguntar onde ficava a tal Oficina dos O’Reilly, não poderia ser tão difícil assim de achá-la…

O cheiro forte e delicioso de bolos recém assados e pão fresco logo chegou ao nariz de Aaron, fazendo seu estômago reclamar um pouco, e por mais que fosse muito tentador dar meia volta e fazer um pedido, Aaron seguiu caminhando até enfim encontrar a tal casa verde.

Rumou para mais próximo do local, imediatamente dando de cara com um lugar espaçoso que cheirava fortemente a óleo, graxa e borracha.

Aaron adorava aquele cheiro.

Um letreiro grande em frente ao que se assemelhava a um galpão espaçoso, estava escrito “Oficina dos O’Reilly”, em luzes verde neon, que naquele momento estavam desligadas.

Ao fundo, Aaron conseguia ver três cubículos separados onde os carros com mais problemas deveriam ser consertados separadamente já que haviam outros carros espalhados pelo local. Não parecia ser uma grande coisa, mas a julgar pela quantidade de carros ali dentro; ou a oficina era realmente boa e bem conhecida pela região, não apenas naquela pequena cidade, ou aquela oficina era a única existente, ou até mesmo as ruas daquele lugar deveriam ser bem ruins de se dirigir.

Também, é claro, havia a opção de que em Birdwhistle não havia bons motoristas.

De qualquer forma, Aaron entrou naquele lugar, caminhando tranquilo enquanto procurava quem poderia ser o dono daquele lugar.

Nem fazia muitos dias que havia estado em um local como aquele, lhe dando toda aquela satisfação natural somente por estar em tal ambiente. Era estranho e bom ao mesmo tempo. Aquela oficina tinha muitos traços de conforto e Aaron gostou daquilo.

— Eu posso te ajudar? — Uma mulher, com o cabelo ruivo preso em um coque alto e que combinavam muito bem com as sardas de seu rosto, perguntou de forma baixa, vestindo um simples macacão azul escuro enquanto caminhava até Aaron, olhando-lhe desconfiada. Os olhos azuis estavam bem atentos, lhe fitando com bastante atenção.

— Ah, eu queria saber quem é o dono dessa oficina, estou procurando um emprego — Aaron respondeu mantendo a postura reta e o nariz em pé, olhava sério para a mulher à sua frente, e mesmo que tivesse que ser mais gentil naquele momento, Aaron odiava implorar, e odiava se mostrar inferior a alguém.

Aaron sabia muito bem das habilidades excelentes que tinha e não iria se rebaixar para ser reconhecido.

A mulher cruzou os braços e soltou uma lufada de ar, parecendo descrente com o que estava ouvindo.

— Ah… Eu sou a dona daqui, garoto — a mulher falou de forma séria, mas sorrindo quando viu a expressão de surpresa nos olhos de Aaron. — Pois é, a chefe de uma oficina é uma mulher — mostrou um sorriso bem convencido. — Sou Emily O’Reilly, e você é? — Perguntou e pegou um dos panos guardados no próprio bolso, começando a limpar as duas mãos sujas de graxa.

— Sou Aaron Matsui — apresentou-se com um sorriso simples, agindo com falso respeito para tentar ganhar alguma simpatia da mulher após o erro anterior.

— E você está querendo emprego? — Emily, a dona da oficina, apenas repetiu o que Aaron já havia dito enquanto virava as costas para o rapaz e caminhava mais para o fundo da oficina, ignorando, assim como Aaron, os olhares bastante curiosos dos demais funcionários dali.

Foi seguindo a mulher.

— Sim senhora, eu tenho grande experiência com carros, já montei e desmontei vários na oficina de Liverpool em que eu trabalhava, e trabalhei um pouco em Londres também, sou bom com motos e-

— Londres, é? — Emily virou a cabeça levemente para encarar o rosto de Aaron, parecendo bem surpresa e desconfiada com a história que ouvia. A descrença de seu olhar era praticamente palpável. Aaron parecia jovem demais para ter toda a experiência que afirmava possuir. Já havia ouvido falar algumas das oficinas de Londres e Liverpool, e eram altamente exigentes, eram oficinas exigentes devido a popularidade que deveriam possuir.

Muitos homens e mulheres poderosos entregavam seus valiosos carros para eles, eram pessoas conhecidas e intimidantes, e Emily duvidava muito que iriam aceitar consertos vindos de um garoto tão jovem.

— Você tem quantos anos? — Emily perguntou com o mesmo tom desconfiado de antes.

— Eu tenho vinte e quatro anos, senhora — Aaron respondeu simplista, enfiando as duas mãos dentro dos bolsos laterais de seu moletom.

— E você realmente já montou e desmontou carros em Liverpool? — Emily perguntou de forma ainda mais descrente, cruzando os braços enquanto observava todas as expressões que o rapaz fazia a sua frente. Um garoto de vinte e quatro anos montando e desmontando carros, com toda aquela experiência parecia bem longe do real.

Todos os seus funcionários tinham no mínimo vinte e oito anos, e alguns com pouquíssimas experiências ainda nessa idade já que terminavam a escola tarde demais. Alguns se esforçavam para fazer cursos de aprimoramento e só então começavam a arranjar empregos e iniciar suas experiências mecânicas.

— Sim, senhora — Aaron confirmou outra vez, colocando mais firmeza em sua voz. — E eu sei que parece muito absurdo, mas é verdade mesmo.

— Realmente, parece mesmo um absurdo para ser bem sincera — Emily continuou a falar. Coçou uma das sobrancelhas e apoiou-se na própria mesa, o olhar continuando a se manter bastante descrente. — É pouco real que você seja tão acostumado a montar e desmontar carros.

— Eu sei, eu sei, mas é a verdade, eu posso provar para você. Não importa a marca do veículo. Eu não esperei me formar na escola para poder aprender algo, minhas experiências começaram bem mais cedo então sou mais capaz de fazer muitas coisas apesar da minha pouca idade.

Emily arregalou um pouco mais os olhos, continuando a mostrar ainda mais surpresa e um sorriso descrente.

— Você fala com muita convicção mesmo — soltou uma risadinha, e então afastou-se da mesa em que estava apoiada. — Então acho que realmente podemos ver se isso é real — Emily falou com firmeza também, olhando atentamente nos olhos de Aaron.

E o garoto ficou em completo silêncio.

— Tudo bem, vem aqui garoto — Emily suspirou, saiu de sua pequena sala e caminhou até o outro lado da oficina, se pondo à frente de uma carcaça do que um dia já havia sido uma moto.

E Aaron sabia muito bem qual moto era aquela. Sabia o preço de qualquer peça, o nome das marcas e motos, sabia reconhecer qualquer coisa com bastante facilidade. Aquilo tudo era sua vida, ou pelo menos, uma grande parte dela.

— Vamos fazer assim, se você conseguir salvar esse pedaço de ferro velho, você pode até trabalhar aqui, mas você só tem até a hora de fechar por hoje! — Emily colocou o pano de volta no bolso, cruzou os braços e seguiu analisando todas as expressões de Aaron com um próprio olhar intimidador, pronta para ver o garoto aceitar por empolgação, ou desistir por saber que não seria capaz de realizar tal façanha.

A mais provável era a última, Emily sabia bem. Contratou os melhores da cidade para trabalharem para si, e ainda assim nenhum deles conseguiria cumprir aquele desafio impossível.

Todavia, a expressão confiante no rosto de Aaron aumentou gradativamente até o momento em que ele soltou uma risada nasalada cheia de segurança. Ele sabia que seria muito fácil conseguir aquele emprego…

— E eu tenho permissão de usar qualquer peça daqui? — Aaron perguntou com ar mais arrogante ao olhar para o rosto da mulher que já parecia mais relaxada, quase como se estivesse realmente se divertindo com aquela história.

Não seria difícil de presumir que não era todo dia que um jovem aleatório de fora entrava naquela oficina em busca de emprego e afirmava ter habilidades bem duvidosas.

Era cômico, e Aaron entendia totalmente caso a mulher começasse a rir de si, era quase patético de se acreditar, então não a julgava por mais que Aaron soubesse que estava falando a verdade.

Só queria provar para ela e fazer a mulher perceber que deveria engolir as próprias dúvidas e dar uma chance para ele.

— Sim, você pode usar qualquer peça daqui — Emily respondeu com um sorriso ainda divertido nos lábios pequenos. Parecia totalmente desacreditada.

— E que horas vocês fecham? — Aaron também perguntou, queria confirmar todos os detalhes.

— Fechamos em quatro horas, bonitão — Emily respondeu sorrindo, aproximando-se de Aaron para dar dois tapinhas no ombro dele. Ela era mais baixa, a cabeça batia nos ombros de Aaron. — Mais precisamente às oito da noite.

— Ok, por mim tudo bem — deu ombros antes de esfregar uma mão na outra, empolgado.

Emily soltou uma risadinha e foi se afastando. Chegou a balançar a cabeça negativamente, sentia-se como se estivesse dentro de um filme, algo como aquilo nunca tinha acontecido antes.

— O que o japinha tá querendo? — Um dos funcionários, Benjamin, perguntou debochado e no mesmo segundo recebeu um tapa forte na nuca vindo de Emily que deixou seu sorriso morrer.

— Olha o respeito! Já te falei sobre isso! — Advertiu de forma séria. — E ele tá querendo um trabalho aqui, se conseguir, vou te tirar por falar tanta merda!

Os outros dois garotos e a única garota começaram a rir antes de voltarem seus olhares completamente para Aaron.

E enquanto ouvia os cochichos ao redor, juntamente com as risadas que não sabia se estavam sendo direcionadas para si ou não, Aaron concentrou-se em todo o trabalho que tinha pela frente.

Tirou o moletom e o amarrou na cintura, deixando os braços à mostra, junto com a tatuagem e a regata branca que logo ficaria suja.

Avaliou todo o estado da moto mais uma vez.

O veículo em questão era uma Suzuki EN 125 Yes, do ano de 2005. Talvez fosse um pouco complicado achar todas as peças que iria precisar, mas nada que Aaron não fosse conseguir improvisar e conseguir dar um jeito como já tinha feito muitas vezes antes em sua vida.

— Vamos lá, gracinha… O tempo foi muito ruim com você.


[...]


— Eu só estou dizendo que a gente ficar das oito da manhã, até às três e meia da tarde estudando é totalmente ridículo! É apenas mais uma maneira de merda de manter os jovens ocupados e distraídos para não fazermos o que os superiores não gostam — a voz melodiosa de Erick estava novamente banhada de irritação enquanto caminhava ao lado do melhor amigo pela praça central de Birdwhistle.

Erick estava sempre com o tom irritado na voz quando se queixava de todas aquelas regras. Alguns podiam jurar que viam fogo em seus olhos, labaredas de irritação queimando a íris bonita só porque suas falas estavam carregadas do que Erick considerava uma grande injustiça.

Do que considerava errado que acontecesse.

Naquele momento, Erick apertou com mais força a alça de sua mochila preta.

— Está bem, Erick — Elijah revirou os olhos ao começar a resmungar. Nunca dava muita confiança ao amigo sobre aqueles assuntos porque ele sabia bem onde tudo poderia terminar, e nunca era em um lugar bom.

Mas Elijah também sabia que não podia ignorar Erick completamente, muito menos os seus resmungos. A coisa sempre tendia a piorar caso fizesse aquilo.

— Comece um movimento revolucionário aqui na praça, aí eu te dou um pouco de atenção — Elijah provocou em tom de brincadeira, batendo seu ombro no do melhor amigo enquanto o via fazer uma expressão completamente descontente, enrugando o nariz caucaziano que tinha. — Vem, esquece isso, vamos comer alguma coisa porque o almoço de hoje estava mais horrível que o normal.

— Todo dia está ficando pior, na verdade, você sabe disso. Parece que não querem que a gente coma mais — Erick fez cara enojada ao falar e olhar para o rosto do melhor amigo.

— Isso, vai, pode militar, Erick! Milita! Pode me dizer como eles também querem nos matar de fome para podermos entrar nos padrões de magreza imposto por essa sociedade capitalista que suga nosso dinheiro e impõe o futuro pronto diante de nós para poder manter seus interesses econômicos intactos! — Zombou sem paciência.

— Vai se foder, Elijah! — Erick cuspiu as palavras com ignorância, e caminhou com mais pressa até a Padaria dos Henderson, enquanto ignorava totalmente o melhor amigo.

— Eu bem que queria foder mesmo, mas já fiz isso hoje, você que parece estar precisando de uma foda embora eu duvide que já não tenha transado esses dias também — Elijah voltou a provocar, em tom baixo para que ninguém próximo escutasse. — Mas ainda assim seus assuntos estão chatos demais, então o sexo que você está fazendo não está ajudando!

Erick apenas o ignorou e os dois entraram no estabelecimento parcialmente vazio, indo até a bancada e vendo Bonnie se aproximar dos dois garotos com um sorriso gentil e largo no rosto pequeno.

— Olá, meninos! — Os cumprimentou com a mesma animação de sempre ao recepcioná-los. — O que vão querer hoje? — Bonnie perguntou já se preparando para pegar os dois pedaços do bolo Red Velvet que ambos os garotos sempre pediam quando voltavam da escola e passavam por ali.

— Dois pedaços de bolo Red Velvet, por favor! — Erick pediu sentando-se em um dos bancos. Tirou a mochila das costas rapidamente, não aguentava mais carregar peso. — Vocês já voltaram a fazer o milkshake de chocolate?

— Sim! — Bonnie respondeu com animação e colocou os dois pedaços de bolo em cima do prato branco com flores delicadas azuis nas laterais que a padaria usava para servir os clientes.

— Ah, então me dê um de chocolate, por favor — Erick pediu abrindo um grande sorriso.

— Eu quero um de caramelo, aqui — Elijah também pediu e estendeu as notas de dinheiro que tirou de dentro da mochila. — Pode usar o troco para completar com aquelas balas de morango! — Elijah apontou para o pote de vidro onde as balas estavam do outro lado do balcão.

— Uma dúvida que eu tenho há muito tempo é como vocês não tem problemas nos dentes de tanto doce que vocês vivem comendo — Bonnie comentou sorrindo, pegando os dois copos grandes de milkshake para poder fazer a bebida de Elijah e Erick que eram os clientes mais do que fiéis da padaria.

Bonnie praticamente os viu crescer do outro lado daquele balcão.

— Mas o Erick tem problema no dente, olha esses dentes minúsculos aqui, daqui a pouco se desfazem como cubos de açúcar no café quente — Elijah provocou e abriu um largo sorriso após a provocação quando Erick retorceu a cara e lhe estendeu o dedo médio.

— Vocês já tem dezenove anos, meninos! Eu acho que já está na hora de vocês amadurecerem um pouco, hein — Bonnie alertou risonha. Ela sabia que tinha intimidade o suficiente com os dois garotos para poder fazer aquele tipo de brincadeira. — Vocês não pensam em arrumar alguém pra namorar, não? Começar a fazer os cursos para faculdade? Ou até mesmo trabalhar?

— Eu não quero namorar e ficar preso em um relacionamento que só vai me machucar — Erick resmungou enquanto apoiava seu cotovelo em cima do balcão, cutucando o bolo a sua frente. — Mas acho que eu quero sim arrumar uma faculdade pra meter o pé daqui, mas ainda falta todo esse ano… Eu nem sei se vou aguentar até lá…

— Você aguenta sim, eu vou estar com você, Erick, vamos nos formar com muito louvor e esfregar na cara do seu pai que você não é o merda que ele e seu tio vivem afirmando. — Elijah corrigiu, também dando certo apoio ao amigo que frequentemente, desde quando era pequeno, sofria com muitos problemas familiares em casa.

Erick ficou em silêncio por alguns segundos.

— Ainda assim, do jeito que minhas notas estão, eu estou muito ferrado e nunca vou sair desse inferno… — Erick continuou a resmungar.

— Eu também estou, Erick, não é só você, estou com muitas notas ruins em inglês e física — Elijah comentou ao revirar os olhos e coçar a própria nuca antes de enfiar um pedaço grande bolo na boca ao mesmo tempo que Erick sugava o milkshake delicioso que Bonnie tinha feito.

— Então, vai ter que se casar com a Rosie, ter filhos e aí a cidade vai ser de vocês… — Bonnie brincou em total tom de provocação, chegando a levantar as sobrancelhas e aumentar o tamanho do sorriso em seu rosto conforme via as feições de Erick ficarem bem irritadas.

Erick realmente detestava Rosie e toda a pressão que seu pai colocava no fato dos dois poderem ter um futuro bom juntos.

— Credo! Saí! Nunca! — Erick resmungou e revirou os olhos, comendo um pedaço grande de seu bolo. Mastigou e depois deu um grande gole em seu delicioso milkshake de chocolate. — Ah, a propósito — rapidamente desejou puxar outro assunto enquanto pegava outro pedaço de bolo e levava seus olhos para Bonnie. — Cadê o Isaac? Faz um tempo que ele não aparece, quando volta?

— Verdade — Elijah concordou logo olhando ao redor. — E vocês ainda nem contrataram alguém para ficar no lugar dele, você consegue dar conta, Bonnie? — Estava preocupado, mas não deixava de comer.

— Ah, eu consigo dar conta sim, Elijah — sorriu para o garoto. — Infelizmente o movimento não anda tão grande quanto no Bar dos Villan, mas está tranquilo. — Respondeu sem parecer triste. Bonnie era de fato um poço de animação, uma pequena e loira pílula da felicidade. — E o meu irmão fez uma vídeo chamada ontem — explicou enquanto começava a organizar o que já estava organizado, era óbvio que o assunto não parecia ser o dos mais animados para ela. — Ele disse que foi a outro teste ontem mesmo e tinha outros dois hoje, mas não sei se ele vai conseguir — Bonnie murmurou um pouco desanimada.

— Vai sim, Bonnie! O Isaac dança muito bem, alguma companhia de dança com certeza vai chamar ele logo — Elijah falou sorridente, bem confiante com suas palavras. O positivismo de Elijah também parecia nunca ter fim.

Erick sentia que parecia ser o único sem empolgação com o futuro, com a vida em si, com o rumo que seus dias levavam e a forma como continuava se perdendo em quem ele próprio era em toda a bagunça que estava sua existência.

— O triste é que também não o veríamos mais — Elijah lamentou com uma expressão entristecida.

— Meu sonho é também sair dessa cidade e ninguém mais me achar — Erick resmungou por fim, engolindo o último pedaço do bolo antes de raspar o garfo pelo prato de forma suave, pegando qualquer resquício do doce que pudesse ter ficado ali.

Ninguém falou mais nada;


[...]


Aaron carregou o tanque de combustível até onde estava a carcaça da moto. Havia sido razoavelmente fácil encontrá-lo, ainda mais sendo um de quatorze litros, bem como era o modelo necessário da moto.

Assim que colocou o tanque no chão, bem próximo da carcaça, Aaron passou uma parte de seu antebraço no rosto, tirando o suor que escorria apesar dos ventos parcialmente gélidos que entravam naquela parte da Oficina.

Chassi, carenagem, pegar os pneus certos, achar o carburador adequado, tudo… Aaron não parava por nenhum minuto sequer, sabia que seu tempo era mais do que curto e deveria aproveitá-lo ao máximo. Se agachava no chão, ficava de joelhos, deitava de costas no meio daquele piso cimentado todo manchado de óleo, graxa e sabe-se lá Deus mais o que.

Aaron não se preocupava, limpava tudo o que fosse necessário e montava tudo o que era preciso, sendo o mais cuidadoso possível, bem minucioso em cada movimento de encaixe de todas as peças. Engenhoso demais, como nunca havia deixado de ser, pelo o que parecia.

De tempos em tempos, às vezes a mão cuja era passada na testa para limpar o suor acumulado, às vezes era passada na própria camisa a fim de limpar a palma. A calça jeans, assim como o moletom, também já estavam sujos.

Aaron estava agachado, checando o berço duplo já instalado para que concluísse logo o resto que faltava.

Suspirou passando as duas mãos na calça outra vez, caminhando até onde ficavam as latas de tinta do local, escolhendo obviamente a cor vermelha para pintar tudo quando terminasse.

Aaron pegou uma das chaves de fenda e começou a voltar ao trabalho, faltavam duas horas para terminar e várias coisas de se fazer.

Ajeitou o motor, o testou muitas vezes, encaixou e calibrou os pneus perfeitamente, adicionou as pastilhas de freio, correntes e a bateria, foi colocando tudo o que era necessário, checando duas vezes antes de ir para a próxima etapa. Sabia que tudo tinha que estar perfeito.

Começou a pintar tudo, certificando-se outra vez se os freios estavam em perfeito estado. Era óbvio que a moto estava bem longe de parecer o que já havia sido um dia, mas Aaron tinha certeza de que ela iria funcionar.

Faltando exatos dezesseis minutos para a Oficina dos O’Reilly fechar, Aaron parou em frente ao escritório de Emily O’Reilly, a mulher que havia lhe dado aquela missão. Bateu de leve na porta já aberta, apoiando-se no batente enquanto ia esfregando as mãos em um pano preto para tirar a graxa e a sujeira de suas palmas.

— Já terminei, senhora! — Informou de forma baixa, abrindo um sorriso ladino no canto dos lábios ao ver a grande expressão de surpresa, e ainda desconfiança, que a mulher mostrava para si.

Emily soltou uma risadinha descrente e nasalada antes de voltar a encarar atentamente os olhos de Aaron de forma bem impressionada.

— Você realmente está falando sério, garoto? — Levantou-se da cadeira em um pulo, caminhando até Aaron e passando por ele de forma ansiosa, estava realmente curiosa para ver o que o garoto tinha feito.

Aaron caminhou atrás dela, seguindo-a de forma calma e bem convencida, mas continuou a exibir o mesmo sorrisinho que mostrou quando foi falar com ela. E estava daquela forma porque Aaron sabia bem da capacidade e do talento que tinha para aquelas coisas.

Ele sabia muito bem que era bom e não parava de reafirmar isso em sua própria mente, ainda que pudesse soar extremamente arrogante e capaz de se cegar com tamanha confiança. Ele sabia que não estava errado.

Por isso, a expressão em seu rosto e seu corpo era bastante pretensiosa.

Viu quando Emily parou e pousou as duas mãos na cintura, mas não viu os olhos da mulher se arregalando ao ver a moto montada diante de si. Todavia, Aaron ouviu a arfada que ela soltou.

Viu a mulher se aproximando, subindo na moto e ligando-a, fazendo o motor roncar alto.

Ela estava funcionando.

Poderia não ser perfeita, mas ela estava funcionando mesmo.

Emily desligou a moto e saiu de cima dela, ainda admirando o veículo com seus olhos bem minuciosos e atentos.

— Nossa! — Emily sussurrou virando a cabeça para encarar Aaron, mas falhava porque logo suas orbes voltavam a encarar o veículo bonito e recém montado que estava à sua frente. A cor vermelha estava exageradamente chamativa, mas não deixava de ser bonita. Poderia até mesmo vender e faturar um bom dinheiro com ela. — Estou impressionada mesmo, bom trabalho garoto, bom trabalho mesmo! E-eu estou mesmo surpresa…

— Obrigada, senhora — o sorriso convencido de Aaron aumentou ainda mais. Tinha direito a tal coisa, afinal de contas, e mesmo que já tivesse feito um trabalho como aquele diversas vezes, Aaron sempre ficava feliz e orgulhoso a cada resultado.

— Onde você aprendeu exatamente a montar tão bem assim sendo tão novo? — Emily caminhou até o moreno, diminuindo um pouco o ar de surpresa pelo resultado da moto, e aumentando a expressão de pura curiosidade.

— Em Liverpool, senhora — Aaron mentiu de forma firme. Não iria entrar em detalhes ou contar a verdade ali, mas também não queria levantar suspeitas da mulher. — Desde novo eu sempre nutri uma paixão por esses veículos e fui acolhido e ensinado também — deu os ombros para soar como se não fosse nada demais.

— E porque não continuou por lá? Sabe, poderia crescer muito mais lá do que aqui, não é? — Emily questionou balançando a cabeça, instruindo Aaron mudamente para que a seguisse até de volta ao escritório dela onde estava anteriormente. — Posso perguntar porque você saiu de lá?

— Alguns problemas com a família — Aaron respondeu tranquilo. Aquilo era verdade, mas também não iria entrar em nenhum tipo de detalhe.

— Hmmm, e esses problemas com a família podem te trazer problemas aqui, ou envolver cadeia? — Olhou brevemente para Aaron, analisando a aparência, a transparência de seus olhos. Emily não queria julgar o garoto, aprendia todo dia a não fazer julgamentos graças ao seu filho, mas em alguns momentos se tornava mais difícil que o normal.

— Não, não senhora! Eu sou o que menos quer a polícia no meu pé! Foram realmente problemas com a família que me fizeram querer distância deles, apenas isso — explicou de forma mais firme, o que era realmente uma grande verdade. Mas não estava sendo totalmente sincero. Sua sorte era que Aaron conseguia ser um bom mentiroso quando desejava.

— Tudo bem então — Emily falou suavemente e então entrou em seu pequeno escritório com uma mesa simples, e vários armários de ferro com o que deveriam ser arquivos de clientes e outras papeladas importantes.

Ela foi até a cadeira atrás da mesa, abriu uma das gavetas ali presente e pegou uma folha, começando a escrever.

— Seu turno pode ser o de uma da tarde até às oito da noite! Também temos o turno das sete da manhã até a uma da tarde, mas eu não fico aqui nesse tempo, e sem ofensas, mas eu ainda não confio totalmente em você e prefiro ficar contigo no meu campo de visão, quero te supervisionar, pelo menos agora no começo — explicou de forma calma, sem nenhuma irritação ou intimidação na voz. Emily parecia uma pessoa tranquila, paciente e compreensiva. Aaron sabia que havia dado sorte com aquilo, poderia respirar tranquilo em muitos momentos, e não haveria tanto estresse.

— Tudo bem, eu entendo — Aaron murmurou sem se preocupar muito com aquilo.

— Você ganha por carro, quarenta por cento do valor do trabalho. Para sua grande sorte estamos em temporada de viagens, e muitos dos campos e locais turísticos são atraentes para os turistas, até de cidades vizinhas, porém alguns são bem perigosos para eles também e por isso nos chamam, temos uma ótima reputação por todas essas redondezas — Emily explicava com um grande orgulho na voz, Aaron mostrou um sorriso impressionado, porém forçado.

Nunca havia ouvido falar naquela oficina, nem mesmo uma única vez, e Aaron realmente conhecia as melhores que havia em cada canto do país. Sabia exatamente onde e quando conseguir as peças que queria.

— Sugiro que trabalhe bem para que os clientes que voltarem escolham você… E também que trabalhe rápido para pegar o máximo de clientes que conseguir. Tem dias que chegam quase dez carros aqui através dos reboques, por isso seja eficiente!

— Ser rápido e eficiente é o meu sobrenome — Aaron sorriu ladino, quase se atreveu a colocar um pequeno pedaço da língua para fora de sua boca, como sempre fazia antigamente entre o pessoal que o via trabalhar. Mas ali era um ambiente totalmente diferente. Não tinha mais regalia nenhuma, não tinha mais nome ou uma verdadeira importância.

Estava começando do zero.

E seria só mais um mecânico dentro daquela oficina.

— Espero que seja mesmo, garoto — murmurou sorrindo minimamente. — Bom, acho que por último o que falta dizer? Hum… Deixe-me ver — franziu as sobrancelhas enquanto coçava a própria nuca. Emily realmente parecia uma pessoa tranquila de se lidar. — Ah, é mesmo! — Estalou o dedo e apontou para Aaron. — Você escolhe sua hora de almoço e quanto tempo vai ficar fora, afinal quem perderá os clientes será você, mas se eu perceber que está me dando um lucro muito abaixo dos outros, logo você será cortado.

Aaron balançou a cabeça positivamente.

— Outra coisa — Emily voltou a pontuar. — Você é novato aqui nessa cidade, então eu vou pegar leve com você, mas se eu souber de problemas que você anda se metendo e que pode prejudicar a minha oficina, eu não vou hesitar em te chutar daqui, entendeu? — Toda a seriedade de Emily estava em seus olhos e seus lábios que formavam apenas uma linha grossa por conta dos lábios fartos que ela tinha.

— Tudo bem, senhora, eu não irei trazer problemas para você e nem para sua oficina — respondeu se forçando a ser o mais educado e respeitável possível.

— Ótimo, aqui está — a mulher estendeu o papel que havia pego e escreveu quando entraram ali. — É o seu contrato aqui, você estará aqui por três meses, porque como eu disse, não confio muito em você. Mas você está contratado, garoto. E se provar seu valor e caráter, então podemos conversar para aumentar sua presença aqui — estendeu a mão e Aaron apertou-a com força. Os dois selando a nova união entre um chefe e um subordinado.

— Começarei amanhã mesmo, senhora! — Demonstrou grande empolgação.

— Ok, vamos conhecer o resto do pessoal então que vai estar com você no turno da tarde! — Falou com um pouco mais de empolgação e saiu do pequeno escritório, rumando em direção aonde estava três garotos e uma garota, os quatro vestidos com macacão azul escuro, sentados em cima de grandes pneus, conversando.

O fim do expediente estava logo ali, os quatro estavam apenas esperando.

— Atenção, queridos desaforados — Emily falou mais maternal com os quatro que rapidamente colocaram-se de pé, não por medo, mas por respeito, pelo o que logo Aaron pode perceber. — Eu quero que conheçam o novo membro da nossa equipe que estará conosco nessas próximas tardes.

.Todos os quatro olharam minuciosamente para Aaron.

— Seu nome é Aaron, como é mesmo? — Emily virou-se para o rapaz, tentando se relembrar.

— Matsui — Aaron respondeu suavemente e Emily abriu um sorriso.

— Isso! Seu nome é Aaron Matsui! — Apontou para o rapaz. — E esses são Benjamin Walsh — apontou para o rapaz com palito de dente na boca, olhos escuros e pele branca como a de um papel. — Tommy Collins Cox — apontou para o rapaz com longos dreads e olhos verdes, o mais alto dentre todos, que fora o único que lhe ofereceu um sorriso amistoso. — Grace Mitchell Shaw — apontou para a garota alta, com tranças vermelhas e azuis que tinha uma tatuagem de flores no antebraço. Ela acenou brevemente. — E Rory Campbell — apontou para o loiro de olhos azuis que era mais baixo do que Grace, e tinha uma expressão curiosa no olhar. — Tem o Bob e o Richard também, mas eles são mais velhos e encerram mais cedo o expediente deles — Emily informou sem grandes preocupações.

— É um prazer conhecer vocês! — Aaron estendeu a mão e sorriu de forma simples para os quatro que nada lhe responderam.

— Não quero brigas e nem picuinhas por aqui! — Emily alertou como se estivesse cansada de fazer aquilo. — O expediente acabou, podem ir pra casa já! — Avisou e os quatro logo melhoraram as expressões que faziam e rumaram em direção aos pequenos armários para retirar seus macacões e irem para casa.

Aaron ficou os observando por alguns segundos, tentando entender melhor o jeito de cada um.

— Não liga não, eles são mais fechados no começo, mas depois não desgrudam mais… São boas pessoas — Emily comentou com o mesmo sorriso e tom afetuoso de sempre antes de dar dois tapinhas nas costas de Aaron e então se afastar também. — Vejo todos vocês amanhã! — Emily falou alto antes de sumir totalmente de vista.

E de fato, Aaron apareceu naquela oficina no dia seguinte.

Vestiu uma calça jeans simples, uma blusa cinza de manga já surrada e um blusão xadrez azul claro.

Apareceu bem no horário que Emily O’Reilly tinha lhe orientado a cumprir. Se preocupou em apenas dar boa tarde para os outros funcionários, vendo homens que poderiam ser Bob e Richard a distância, mas não deu nenhuma brecha para que qualquer um se aproximasse de fato.

Passou seu dia melhorando a moto que consertou no dia anterior, esperando aparecer algum carro que pudesse dar um jeito por ali.

Apesar de detestar usar aqueles macacões, Aaron sabia que agora seria necessário já que não tinha mais uma fortuna para gastar com roupas. Teria que lavar as que tinha sem poder descartá-las como se não fossem nada.

Usava um que caiu bem em seu corpo, e junto dele um pequeno crachá com seu nome escrito que a própria Emily havia lhe entregado.

Não fez nada em seu primeiro dia, nem no segundo, e nem no terceiro.

Somente em seu quarto dia de trabalho, chegaram carros o suficiente para que ele trabalhasse, os reboques trouxeram vários, e um deles aceitou ser atendido por Aaron que de forma rápida, identificou o problema e o resolveu sem nenhum estresse.

Devido a velocidade na qual trabalhou com o primeiro carro, conseguiu pegar outro para trabalhar, esse demorando um pouco mais do que o primeiro. Ia até o cliente, explicava o que tinha acontecido e o que tinha feito para resolver o problema, e enquanto fazia isso, conseguia perceber alguns olhares tortos que recebia de determinados clientes, mas Aaron não se importava, não quando algum filho ou filha deles lhe olhavam com interesse aparente.

Aaron realmente parecia um pedaço delicioso de mal caminho para os jovens, ele mesmo já tinha escutado aquilo algumas vezes. Porém era algo que não estava dando a mínima. Aaron queria apenas trabalhar, ter seu dinheiro, sair daquele hotel e se estabelecer em algum lugar de paz um dia, talvez depois pudesse pensar em estar com alguém, embora isso quase parecesse impossível.

Aaron não se agradava com a ideia de dividir sua vida com alguém, tinha problemas com dividir as coisas e não entendia muito bem como se importar com alguém, para ser sincero, não achava que conseguia ser gentil, empático ou sensível o suficiente para lidar com outra pessoa que desejasse ter uma relação consigo.

Não se via tomando atitudes impensadas como as pessoas faziam nos filmes e séries, tudo em nome do amor, da grande paixão que sentiam. Era um pouco estúpido no seu ponto de vista. Aaron não queria entrar naquela lista.

Sua vida romântica se resumia em breves casos com garotos e garotas que foi conhecendo ao longo da sua vida.

Preferia ter seu espaço e sua própria rotina.

Levantou o capô do carro que havia entrado há pouco tempo na oficina, cerca de dois minutos atrás. Observou os outros funcionários fingindo agir como se estivessem muito ocupados. Aaron a princípio estranhou, é claro, mas logo depois revirou os olhos e caminhou até o sujeito bem vestido parado ao lado do veículo. Mesmo que aquele cliente fosse bastante chato, ainda assim não deixava de ser um cliente.

Aaron passou suavemente a língua nos lábios enquanto ia posicionando as duas mãos na ponta do capô suspenso. Seguiu olhando todo o carro, cutucou algumas coisas e abriu outras somente para checar, sorrindo ladino ao ver a expressão do homem ficar mais séria a partir do momento em que Aaron cutucava ainda mais o veículo.

— Olha, se você não sabe o que é, apenas chame um mecânico de verdade! Onde está a Emily? Eu quero a melho-

— Seu problema é no filtro de ar do seu motor — Aaron respondeu sério, olhando para o homem que endureceu completamente sua mandíbula. — Eu poderia resolver isso facilmente, mas o senhor quer um mecânico de verdade, não é? — Fechou a tampa do capô. — O senhor pode esperar um dos outros desocupar ou a senhora Emily voltar de onde ela foi cerca de só dez minutos atrás — cruzou os braços cujas mangas do macacão estavam erguidas, exibindo as tatuagens.

Aaron não se preocupou nem um pouco em se apoiar no carro alheio, aumentando sua pose pretensiosa por conta daquela situação. Achava muita graça quando o tratavam como inferior ainda mais dentro de uma oficina. Quando o julgava por sua aparência. Adorava quebrar a cara das pessoas e estourar a bolha de ilusão que elas possuíam.

O homem olhou ao redor e voltou a encarar Aaron, parecia irritado com o que teria que falar.

— Tudo bem, você pode resolver o problema do meu carro…

— O senhor tem certeza? Acho que não sou tão qualificado, e nem mecânico de verdade para fazer isso — resmungou cínico, fingindo insegurança.

Não estava com medo de perturbar um pouco aquele cliente chato, até aquele momento estava se saindo muito bem. A própria Emily havia lhe dado alguns elogios e aprovado seus trabalhos antes de sair naquela tarde.

E quando recebeu tais elogios, apenas deu os ombros, agradecendo por educação. Nada daquilo era uma novidade para si, na verdade eram trabalhos simples demais já que já fez trabalhos muitos mais complexos em carros que jamais seriam vistos pelas pessoas daquela cidade. Carros tão raros que muitos nem sabiam que havia no país. Consertar carros e motos era como brincar para Aaron com seus vinte e quatro anos.

O homem à sua frente cerrou os punhos.

— Sim, eu tenho certeza que você é mais do que capaz de resolver o problema do meu carro — soltou de forma séria e inconformada.

— Ótimo! — Abriu um grande sorriso, desencostando-se do carro e abrindo o capô outra vez. — Volte em uma hora e meia, senhor, eu vou aproveitar e trocar suas velas que já estão ficando bem velhas — informou dando uma piscada para o homem antes que ele se afastasse bufando, caminhando para longe dali.

Aaron ainda continuou mantendo um sorriso nos lábios enquanto observava ele realmente ir embora da oficina, encontrando-se com outros dois homens que foram se afastando junto dele.

— Você é bem corajoso, garoto — a voz de um dos funcionários, Tommy Collins Cox, apareceu bem ao seu lado. — Aquele com quem você acabou de falar é o nosso prefeito.

Aaron levantou uma das sobrancelhas, desconfiando se era sério ou uma pegadinha.

— É sério, cara! — Tommy insistiu, levantando as duas mãos, o sorriso presente nos lábios grossos.

— Ele não é muito simpático pro meu gosto — Aaron comentou ao cruzar os braços e voltar a se apoiar no carro. — Parece um babaca…

— E ele é — Tommy sorriu — Grace quase foi demitida uma vez porque confrontou um dos seguranças dele, foi uma confusão. Desde então ou é o Bob, ou a senhorita Emily que conserta os carros dele.

— E mesmo assim votaram neste babaca? — Aaron parecia confuso.

— Não é como se a gente tivesse muita escolha — Tommy suspirou, pronto para se afastar, mas Aaron não iria deixar a conversa em aberto daquele jeito.

— Espera aí, como assim? — Perguntou curioso. — Ele governa uma ditadura ou algo do tipo? — As sobrancelhas estavam franzidas.

— Não, na verdade não sei… O nome da nossa cidade, vem da família dele — deu os ombros. — Birdwhistle. O nome dele e da família é Birdwhistle, dizem que eles fundaram essa cidade, a linhagem deles está aqui desde quando Jesus estava na terra — brincou soltando uma risadinha. — Então os mais velhos e conservadores sempre votam na família dele, é uma tradição a família dele estar no poder, e assim birdwhistle é governada.

— Isso é muito bizarro — Aaron comentou baixinho, achando aquela história absurda. Voltou a encarar a direção para onde o homem tinha ido. Claro que não o iria ver, mas ficou pensando sobre aquilo, e depois de alguns segundos Tommy se afastou, voltando ao próprio serviço.

Os pensamentos não governaram muito a cabeça de Aaron, logo ele voltou a trabalhar, concentrando-se no filtro de ar do motor.

O resto do dia foi se passando sem muita pressa, Aaron continuou a trabalhar e recebeu o pagamento de seu dia quando seu horário de serviço se encerrou. Voltou para o Hotel dos Carter sem nenhuma pressa ou preocupação.

Pegou mais sete dias naquele hotel porque ainda não havia encontrado outro lugar para ficar permanentemente e também por conta do risco do local lotar e ele acabar ficando sem onde dormir já que realmente estava vendo mais turistas passando por ali.

Os dias se passavam com rapidez, Aaron gostava do que fazia, então sempre parecia que seus dias não chegavam a ter nem mesmo quinze horas. Dormia como uma pedra durante a noite.

Estava entrando em uma rotina simples e apesar de toda a simplicidade na qual levava seus dias, Aaron chamava muita atenção. Seja quando entrava na Padaria dos Henderson, quando estava passando na rua, ou quando estava apenas trabalhando. Todos que viam Aaron Matsui andando pela cidade, vestindo apenas calças jeans, botas comuns, a regata e às vezes o blusão xadrez por cima e as costumeiras bandanas… Todos mantinham seu olhar no rapaz.

Cochichavam entre si, fofocavam especulando coisas ou apenas se perguntando sobre o passado dele, sobre o que tinha levado-o até ali, e Aaron não se importava nenhum pouco.

Sua consciência estava totalmente limpa.

Gostava de alguns sorrisos que recebia, algumas piscadas nem tão discretas, gostava de parecer ser a coisa completamente “exótica” ali somente pelo seu jeito de se vestir.

Mas Aaron gostava de estar brincando com a mente das pessoas daquela forma. Muitas vezes até preferia comer em uma das pensões dali, tomar café da manhã na Padaria dos Henderson porque sabia que atrairia olhares e absurdos rumores.

Já fazia mais de uma semana que estava ali, e ninguém parecia tê-lo superado. Aquilo era hilário aos olhos de Aaron.

Dando mais um retoque na moto que montou no dia que foi contratado, Aaron aguardava seu horário terminar para enfim ir embora, chegar em seu quarto do hotel, tomar um banho e talvez bater uma punheta naquela noite.

Subiu na moto, ligando-a, fazendo o ronco do motor ecoar alto ao mesmo tempo em que o sorriso de Aaron aumentava. Não tinha como substituir aquela paixão para si. E uma de suas antigas paixões, quando ainda era menino, era possuir uma moto daquele exato modelo. E agora poder estar “recriando” ali, ao seu exato gosto, era tentador demais para que ele desejasse roubar o veículo para si.

Segurou as manoplas com firmeza, pisando forte nos pedais retrô, fazendo com que o motor soltasse um ronco ainda mais alto; era delicioso ouvir.

— Oi, por acaso você viu minha mãe? — Uma voz suave chamou a atenção de Aaron, fazendo-o parar de brincar com o veículo e olhar para cima, encarando a figura de um menino mais baixo com o cabelo laranja vivo, e cheios de sardas no nariz caucasiano e nas bochechas cheias.

O garoto estava lhe fitando com curiosidade enquanto apertava as alças da mochila com força por cima do uniforme escolar.

Ele não parecia ser tão novo para estar usando uniforme da escola.

— E quem é a sua mãe, pirralho? — Aaron perguntou cerrando um pouco os olhos.

O garoto fechou a cara no mesmo segundo, formando um bico completamente irritado nos lábios. Aaron podia jurar que o garoto estava até mesmo pronto para uma briga.

— É a sua chefe, seu babaca! Onde está a minha mãe, Emily O’Reilly?

— Ah… — Aaron ajeitou a postura, entendendo melhor a situação. Não tratava-se do filho de algum cliente, era realmente o filho de Emily, a dona da oficina. E agora que Aaron parava para analisar melhor, conseguia ver a grande semelhança que os dois tinham. O cabelo laranja vivo, as sardas, tinham o mesmo nariz e o mesmo queixo. Emily tinha um olho azul mais claro e aceso que o do garoto à sua frente. — Ela saiu, foi fazer alguma coisa que não me contou, mas acho que tem haver com um carro enguiçado próximo de Rochester — informou de forma séria.

O garoto bufou parecendo insatisfeito.

— Que droga — o garoto resmungou — ela vai demorar então — revirou os olhos.

Aaron ficou em silêncio e então aos poucos começou a voltar o que estava fazendo antes. Ignorando a presença do garoto, mas ele não pareceu ir embora.

— Hum… Você é o novo funcionário que minha mãe disse? — O garoto perguntou olhando atentamente para Aaron, passando seu olhar por todo o rapaz, certamente gostando do que estava vendo.

— Não sei o que sua mãe lhe disse, mas sim, sou o novo funcionário daqui — balançou a cabeça positivamente enquanto falava, descendo da moto.

— Ah — o garoto arregalou os olhos, parecendo perceber algo que já deveria ser bem óbvio, mas ele ainda não tinha se tocado. — Você é o cara que muita gente tá falando! — Apontou para Aaron sem nem disfarçar, e Aaron achou engraçado a expressão que ele fazia. — Você é bonito mesmo.

Aaron soltou uma pequena gargalhada grave e Elijah sentiu os pelos de seu corpo se arrepiarem no mesmo momento por conta da voz grave e bonita. O rosto de Aaron ficava ainda mais bonito enquanto sorria.

— Obrigado, pirralho — Aaron agradeceu enquanto andava para olhar um dos relógios presos na parede.

— Meu nome não é pirralho, é Elijah — informou com resquícios de irritação por ser chamado daquele jeito.

Aaron parou e o olhou atentamente nos olhos.

— Tudo bem, Elijah, já deu minha hora, vou embora — tirou a bandana que prendia seu cabelo preto e os balançou antes de prendê-los outra vez com o mesmo acessório.

— Você é realmente bem bonito — Elijah sussurrou ao aproximar-se um pouquinho mais de Aaron, olhando-o nos olhos.

— Eu não fico com pirralhos, então pode desistir — Aaron murmurou caminhando até seu pequeno armário. Tirou o macacão e o prendeu ali, pegando o resto de suas coisas para enfim sair da oficina.

Mas era óbvio que Elijah não deixou que o encontro dos dois se limitasse apenas naquilo. Elijah era bem insistente, e por isso, logo no dia seguinte lá estava o garoto novamente na oficina de sua mãe após a escola.

— Mas você tem quantos anos? — Elijah insistiu de forma baixa, olhando para o corpo de Aaron abaixo daquele carro, somente as canelas e os pés estavam visíveis.

— Por que você quer saber tanto assim? Vá perturbar os outros um pouco — Aaron resmungou sem paciência.

Elijah parecia um carrapato.

— Porque eu já conheço eles há anos, não tem mais nada de interessante para perguntar — Elijah resmungou.

— Nossa, muito obrigado, Elijah — Benjamin comentou enquanto passava segurando uma bateria nova, ouvindo o que o garoto falou e não conseguindo se conter para mostrar mesmo que ouviu.

Elijah sentiu suas bochechas corando de vergonha, mas logo abriu um sorriso bonito para Benjamin.

— Ah, não se magoe, você sabe que é verdade — Elijah comentou simplista e logo voltou sua atenção para Aaron. — Vai, me diga qual a sua idade… Você sabe que eu posso perguntar para a minha mãe de todo jeito, mas prefiro que você me fale — resmungou brincando com um dos anéis que estava em seus dedos.

— Então vai lá e pergunta pra ela — respondeu rude.

— Aff, você é muito chato — Elijah rosnou a resposta e levantou-se da cadeira, decidindo ir embora e tentar mais no dia seguinte.


[...]


— Eu não acho que carros deem mais emoção do que motos — Elijah comentou baixinho, sentado no chão com as pernas dobradas, vendo Aaron trabalhar na mesma moto de sempre enquanto nenhum cliente chegava naquela tarde de segunda-feira.

Aaron olhou para o rosto de Elijah, vendo-o sugar mais de seu milkshake de caramelo.

— É porque você não dirige nenhum dos dois… As motos são legais, mas muito de seu favoritismo é devido a velocidade e praticidade em correr pelas ruas — Aaron argumentou tranquilo.

— Mas isso não é o mais importante? — Elijah franziu as sobrancelhas.

— Você está querendo falar sobre importância ou emoção? Porque os carros ganham na emoção… Nada se compara com a adrenalina de ficar pilotando um carro em alta velocidade, são muito mais coisas a se pensar na hora da corrida, a emoção e o desespero aumentam e a adrenalina explode nessa hora… — Aaron respondeu de forma mais melancólica do que Elijah esperava, e aquilo surpreendeu o rapaz. Foi fácil notar o tom de saudade que Aaron carregou em sua voz durante toda a sua frase.

— É, acho que você tem razão… Mas você parece saber muito sobre o que está falando — pontuou baixinho, esperando conseguir uma informação a mais. Elijah sentiu sua pele queimar quando os olhos sérios de Aaron encararam seu rosto com intensidade.

— Claro que sei, eu sou mecânico!

— Mas não pare-

— Elijah? O que você está fazendo aqui? — Emily falou alto assim que saiu do próprio escritório. — Eu já disse que não quero você andando por aqui falando com meus funcionários! Vai pra casa fazer seus deveres de escola! — Brigou e no mesmo segundo Elijah levantou-se do chão e praticamente saiu correndo como uma verdadeira criança que tinha aprontado.

Emily encarou Aaron por alguns segundos antes de caminhar até outro funcionário.


[...]


— Eu sinceramente não quero levar uma bronca por ficar falando com você — Aaron resmungou todo inclinado no veículo que estava consertando naquele momento.

— Eu já conversei com a minha mãe sobre isso, relaxa, tá tranquilo — Elijah comentou com desdém, não se importando muito mais com as broncas que poderia levar de sua mãe.