Baem C.1: As Serpentes do Exército.

Atualizado: 30 de set. de 2021

Sinospe: Comandante; Coronel; Capitão; Tenente; Sargento; Cabo; Civil

Ishikawa Takashi com seus 27 anos já era o Capitão do exército e da unidade de elite mais eficaz que seu país tinha, sendo um gigantesco feito para si mesmo.

Era um líder bem disciplinado, preparado e excelente em tudo o que fazia. Todavia, líderes tão disciplinados assim não se envolvem com civis de 20 anos de idade, cuja a lei exclusivamente para militares, proíbe.

Ou pelo menos, assim deveria ser...


[Contém; Violência / Ação / Suspense / Romance / Cenas fortes / Lemon / Aventura / Linguagem imprópria]



País; Kah Ulleugao.

Localização; Base Militar da cidade de Pietra.

17 de Março, 2021. Quarta Feira.



Kah Ulleugao era um país insular habitado no Oceano Pacífico, ao sul do Japão e a nordeste das Filipinas.

O pequeno país que conseguiu sua total independência do Japão em 1949, continha atualmente trezentos mil habitantes em uma área de cinco mil quilômetros quadrados.

Seu idioma e a maioria de seus habitantes eram descendentes do próprio Japão devido à colonização que durou muitos anos, e também das Filipinas; que se tratavam de refugiados vindos da Segunda Guerra Mundial bem no fim de 1941, quando o Japão também invadiu o país e envolveu Kah Ulleugao na guerra.

Também havia poucos descendentes dos Estados Unidos, nação que ofereceu-se para ajudar a economia do pequeno país asiático após o fim do Confronto de Ulleugao, um enfrentamento contra o Japão após o fim da Segunda Guerra, para sair totalmente do domínio das forças japonesas e impor sua independência para o resto do mundo.

Não demorou muito para Ulleugao começar a mover o respectivo governo por conta própria, quando a ajuda dos Estados Unidos para com Ulleugao chegou ao fim em 1952, um ano antes do fim da Guerra das Coreias, cuja Coreia do Sul tornou-se a próxima beneficiada pela ajuda do país norte americano.

Após o tsunami de 2004, Kah Ulleugao aumentou suas forças militares a fim de oferecer ajuda e abrigo a diversos países asiáticos afetados pelo fatídico terremoto submarino, aumentando seu poderio sobre eles e garantindo a própria melhoria econômica e um crescimento ainda maior de suas forças armadas.

Nos tempos atuais, a força militar do país aumentou consideravelmente ao ponto de ser bastante reconhecida por seus soldados disciplinados e sua secreta equipe especial que agia com extrema perfeição em cada missão recebida, cujo nome poucos conseguiram ouvir falar.

E por ali, por entre o longo território de terra da Base Militar que pertencia a cidade de Pietra — primeira mulher militar de Kah Ulleugao —, estavam os soldados que corriam conforme seu Tenente dava as ordens, montando e desmontando suas armas e se envolvendo em combates físicos um contra o outro em prol do melhoramento físico e resistivo de cada um.

Mas também, de outro ponto de vista daquela Base Militar, sentado em sua cadeira bem estofada altamente confortável enquanto havia dois homens fardados parados à sua frente que permaneciam imóveis e batiam continência, estava o general Ueno Masao; Comandante do exército de Kah Ulleugao.

O sol estava entrando bem tímido através da grande janela semi aberta que tomava conta quase que completamente da parede direita aos dois homens batendo continência. E por essa mesma abertura, a visão de boa parte da base militar era bastante privilegiada para o comandante, que sempre mantinha-se bem atento a tudo o que por ali acontecia..

A primavera estava ali, chegando e dando um vago "olá" para todos com sua brisa fresca e as poucas árvores deixando toda a base com o cheiro adocicado das rosas.

O mundo, ou pelo menos boa parte da Ásia, conhecia Ueno Masao por ser o segundo maior general que Kah Ulleugao já havia tido em todos os seus anos após a independência, ficando atrás somente do grande comando que a própria Pietra já havia realizado para o crescimento do país.

Mas, Ishikawa Takashi, o soldado que naquele momento permanecia batendo continência dentro da sala do Comandante, também conhecia Masao como “Tio”.

O homem que era irmão de seu falecido pai.

Quando Takashi tinha apenas quatro anos de idade, seus pais morreram em um acidente de carro, fazendo com que o jovem fosse acolhido pelo tio — único parente mais próximo — criado e educado pelo seu modo rígido e frio, criação essa que foi inteiramente a base da educação militar.

Mas, Takashi, diferente do que muitas pessoas poderiam chegar a pensar, gostava do modo como foi criado. Foi bastante duro? Sim, em alguns momentos duro demais, porém ele não teria se tornado o Capitão do Exército em plenos 27 anos se não fosse pelos grandes esforços do homem à sua frente que não poupou nenhum dia para treiná-lo devidamente.

— Vocês sabem porquê eu os chamei aqui, não é? Capitão Takashi, Tenente Liwei?

Takashi desfez a continência para responder ao seu superior no mesmo segundo em que a pergunta foi feita.

— É a respeito do possível rumor sobre os submarinos norte-coreanos que chegaram próximos demais de nossas terras, senhor? — questionou sério, voltando a bater sua continência.

— Não, não é sobre isso — Masao suspirou, jogando sem muita brusquidão uma pasta em cima da mesa, grudando suas costas com o estofado da cadeira. — Vocês podem relaxar, meninos...

Os dois desfizeram a continência.

— Eu os chamei aqui somente para parabenizá-los pela última missão de sucesso que os dois realizaram… — O homem que detinha mais poder do que qualquer outro ali, falou bastante calmo, e Takashi logo passou seus olhos castanhos pela pasta que Masao jogara em cima da mesa anteriormente, era nada mais do que as folhas com seus relatórios.

— Somente fizemos o nosso trabalho, senhor — Liwei falou tranquilo, mas ainda exalando bastante respeito e todo o tom de sua fala.

— Era uma missão importante, eu reconheço isso, e chutaria que poderia chegar a ter uma semana de duração, mas os dois a realizaram em três dias, estou surpreso, até o nosso Ministro da Defesa ficou surpreso com o desempenho — Masao juntou as duas mãos ao curvar seu corpo um pouco para a frente, pondo suas palmas em cima da mesa de madeira, hábito que sempre tinha ao contar algum notícia que tinha o teor mais calmo e menos sério.

— Assim como o Tenente Liwei falou, senhor, somente fizemos o nosso trabalho, senhor — Takashi o respondeu calmo, olhando nos olhos do homem que o havia criado e que naquele momento não mantinha nenhum vestígio de carinho ou orgulho familiar em sua íris.

A única emoção que Masao passava era a de satisfação por outra missão dada ter sido cumprida.

Somente isso.

— Bom, de qualquer forma, a equipe Baem tirará o resto dessa semana de folga — jogou as costas para trás novamente, recostando na cadeira. — Avise aos seus soldados, Capitão Takashi, mas na segunda-feira já os quero de volta à Base Militar novamente.

— Sim, senhor! — Os dois homens, anos mais novos, responderam de forma firme, batendo continência ao mesmo tempo.

Ambos saíram da sala sem ousarem abrir a boca. Na verdade, nem mesmo quando fecharam a porta e começaram a andar pelo corredor bonito e perfeitamente limpo, cujo vários soldados de patentes menores permaneciam imóveis batendo continência aí, Takashi e Liwei falaram alguma coisa. Os dois somente caminhavam calmamente enquanto observavam os rostos jovens dos outros soldados, algumas posturas minimamente tortas aos olhos bem experientes dos dois que estavam acostumados àquilo durante a maior parte de suas vidas.

Dois homens que estavam fardados de branco abriram a porta principal para eles e então saíram do principal prédio militar da Base.

Takashi mantinha somente um único pensamento em sua mente enquanto sentia o sol bater em seu corpo vestido com o uniforme e ouvia suas botas pretas baterem nos cascalhos do chão conforme andava; será que seu peixinho dourado ainda estava vivo depois de tanto tempo sem ele próprio estar no apartamento?

— O que vai fazer? — Liwei perguntou baixo, caminhando ombro a ombro com seu Capitão, e amigo.

— Como assim? — Takashi estreitou as sobrancelhas levemente grossas e escuras assim que virou seu rosto para Liwei. Observou o nariz curto que ele tinha e pele com menos melanina que a sua, olhos tipicamente orientais como os seus.

— O que você vai fazer com esses dias de folga? — O outro, que ainda era dois anos mais velho que Takashi, explicou mantendo um sorriso no canto dos lábios.

Liwei, assim como Takashi, era filho de um homem importante do exército de Ulleugao e filho de uma taiwanesa que havia conhecido quando estava em missão. Nasceu e cresceu em Taiwan até os oito anos de idade, quando sua mãe morreu e então foi enviado para Kah Ulleugao e viver sob os cuidados do pai, um Capitão honrável que morreu nove anos atrás.

Liwei e Takashi se aproximaram justamente por esse motivo, duas crianças que foram criadas — e treinadas — de maneiras rígidas e que seguiam esses ensinamentos até os dias de hoje. Se tornaram amigos, quase irmãos, mostrando sempre excelentes notas e performances quando trabalhavam juntos.

Mantinham certa competitividade natural um com o outro, gostavam de deixar as coisas mais interessantes quando iam participar de alguma simulação ou treinamento mais privado para os soldados de elite que o exército possuía.

Tornaram-se conhecidos tanto dentro do exército de Ulleugao, quanto pelo exército de outros países. Iniciaram secretamente uma unidade de forças especiais para missões mais perigosas e sigilosas, essa nomeada de Baem. Receberam medalhas de honra, bravura e muitas outras que foram fortemente escondidas pela mídia. Porque, para o mundo dos civis, Baem não existia. Para os exércitos inimigos, Baem era altamente temida.

Takashi era quem comandava a unidade, enquanto Liwei era o segundo no comando.

Contando com eles dois, eram apenas cinco homens e duas mulheres que faziam parte daquela unidade. E por mais que Takashi gostasse de atuar internacionalmente com sua unidade especial, também apreciava ficar na Base Militar, treinando novos recrutas e executando missões simples, tal como uma das últimas, onde teve que ir até a China acompanhar o Ministro da Agricultura de Ulleugao em uma reunião importante. Ou outra vez em que comandou um dos pelotões para ajudar em uma simulação de bombardeio que poderia acontecer em Taiwan.

— Eu devo ficar em casa, bebendo cerveja até esquecer meu próprio nome enquanto dou descarga no Golden, o peixinho dourado que eu tinha comprado. Você se lembra dele, não é? — Finalmente respondeu, voltando a encarar todo o terreno à sua frente, todos os soldados em treinamento.

— Lembro que apostei um almoço dizendo que você não o manteria vivo, coitado — sorriu para o homem dois anos mais novo, balançando sua cabeça negativamente. — Está na hora de me pagar.

— Eu não me recordo disso — sorriu ladino.

Liwei respondeu apenas com um bater de ombro fraco.

— Eu vou avisar ao pessoal agora sobre a folga repentina que ganhamos e já vou sair daqui, você vai fazer algo? — Takashi perguntou, retomando ao assunto do porquê caminhavam em direção ao alojamento especial que pertencia a Baem.

— Eu tenho assuntos a resolver com o Tenente Toshio, depois ainda tenho que passar na sala do Seiji — suspirou pesado, cansando-se apenas por citar que teria que ter uma conversa com o outro Tenente de quem não gostava muito, mas era seu superior hierarquicamente.

— Está encrencado?

— Não. É mais aquela burocracia chata de rever meus documentos e ações envolvendo minha família em Taiwan — balançou as mãos em descaso — mais drama por ter um Tenente Taiwanês no exército de Kah Ulleugao...

— Chorarei por ti, então — sorriu abertamente, recebendo outro bater de ombro.

Antes que finalmente chegassem ao alojamento, os dois se separaram com leves acenos. Takashi continuou sua caminhada, sozinho, até o local. Abriu a porta devagar, caminhando sem pressa até o lugar exato em que sua unidade ficava alojada.

Eram sete camas, vários armários, cabides espalhados, uniformes jogados e cinco pessoas paradas de frente para si, batendo continência.

Park James. 26 anos.

Renalyn Dagamac. 26 anos.

Nyt Yougi. 26 anos.

Thomas Nallos. 28 anos.

Undayan Aiko. 25 anos.

— Vocês não precisam fingir que me respeitam tanto assim... — Takashi sorriu vendo os demais abaixarem seus braços e soltarem baixas risadinhas. — O comandante nos deu até segunda-feira de folga pelo excelente trabalho que desempenhamos nas Maldivas.

Sentou-se em sua própria cama, somente para jogar-se de vez no colchão em seguida.

— Descansem, se alimentem bem, vejam suas famílias e estejam aqui segunda-feira às cinco da manhã. — Falou calmo, olhando o teto, perdido nos próprios pensamentos do que ele próprio poderia fazer naquele tempo longe da Base Militar. — Estão dispensados.

Os cinco bateram continência mais uma vez, antes de começarem a arrumar suas coisas.

Ishikawa Takashi continuou perdido nos próprios pensamentos enquanto permanecia fitando aquele teto.

Para o de fios castanhos escuros, não existia muita coisa para si além do exército. Amava aquilo, amava a adrenalina, amava ajudar seu país e ser reconhecido por isso. Gostava do respeito e da admiração que todos tinham por si, mesmo sendo tão jovem; gostava de algumas regras, gostava de toda aquela disciplina; gostava da área que executava suas especialidades e amava o fato de proteger as pessoas. Havia a pressão de ser o líder, mas nunca falhava. Então sua confiança — e ego — estavam sempre inflados.

Era como ver em filmes de ação, onde os soldados ajudam os civis, aparecem de repente fortemente armados, exibindo toda aquela presença incrível e salvando o mundo. Takashi vivia naquele enredo de filme hollywoodiano embora todas as questões fossem muito mais sérias e menos “romantizadas” do que de fato acontecia nos filmes.

Demorava anos para conseguir realmente ir onde civis estavam para poder ajudá-los tendo perigosas armas de fogo, porque Kah Ulleugao priorizava bastante um real e pesado treinamento para poder fazer com que seus soldados fossem os melhores possíveis.

Ainda assim, Takashi amava aquilo. E por mais que às vezes fosse muito exaustivo e arriscado, não era fã número um de ganhar dias de folga.

Isso é claro, até conhecer e fazer uma estranha amizade com Jekt Aniyok. Um barman que trabalhava em uma das mais famosas boates de Buanduli, cidade vizinha a de Pietra, onde ficava a Base Militar principal de todo o exército pertencente de Kah Ulleugao.

Conheceram-se ao se oferecerem juntos para ajudar uma idosa que carregava bolsas demais na rua, os dois ajudaram a mulher e iniciaram uma conversa simpática enquanto acompanhavam a senhora até em casa. Tudo aquilo despertou interesse em se conhecerem ainda mais.

Depois daquilo, Aniyok ofereceu um cartão vip para o de fios castanhos, sorrindo e dizendo que Takashi deveria ir até a Ghost — boate em que trabalhava — e tomasse alguns drinques. Levou Liwei consigo naquela noite.

E Takashi ainda agradecia imensamente á três coisas:

1. Ter recebido o convite de Aniyok.

2. Liwei ter insistido muito para que fossem à boate naquela noite mesmo.

3. E por ter sido agraciado com a visão de ver Nomura Ethan dançando.

Conheceu o garoto mais novo há cerca de dez meses e desde então haviam assumido descaradamente a grande atração que sentiam. Era para serem somente algumas transas simples, e em voz alta, os dois falavam que era somente isso mesmo que mantinham, mas internamente sentiam algo um pouco mais forte. Os dois quase não se viam devido às missões secretas que Takashi precisava realizar em outros países, o impossibilitando de manter qualquer tipo de contato ou rotina mais próxima junto de Ethan.

Aquilo, às vezes, frustrava o rapaz anos mais novo. Toda hora o de fios castanhos sumia, mudava o número do celular, e até aparecia com algum tipo de corte ou hematoma pelo corpo amorenado bonito.

E no meio de toda a seriedade e responsabilidade que seu emprego exigia, Takashi enfrentava problemas por não poder contar a Ethan o seu verdadeiro trabalho, também tinha que esconder sua verdadeira orientação sexual do exército pelo qual lutava, enfrentar a curiosidade grande de Ethan e todas as discussões em que entravam ao invés de aproveitarem o breve momento que tinham juntos... Eles se ignoravam, e quando se viam mais uma vez, era como se nada tivesse acontecido.

Entretanto, nenhum dos dois esquecia de verdade.

Mergulhado na incerteza de ir encontrar-se com o bonito Nomura aquela noite ou apenas beber cerveja até esquecer o próprio nome, Takashi mal percebeu quando Aiko sentou-se sutilmente em sua cama, o olhando enquanto sorria pouco.

— O que você quer? — Levou o olhar até a garota que tinha a menor idade entre todos os membros da Baem, porém era a carregava o título de mais inteligente da equipe.

— Quero saber se realmente vamos voltar só segunda, ou se vamos receber algum telefonema para voltarmos à Base no meio da noite — murmurou suspirando. — Das últimas três vezes foi assim, Capitão.

— Não faço as regras, Aiko, eu também xingo bastante ao receber esses telefonemas... — Sentou-se na cama, levantando os joelhos e colocando os cotovelos sobre eles ao juntar as mãos.

— Eu só quero uma folga de verdade — bateu de leve nos próprios joelhos, levando o olhar para o chão, formando um pequeno bico em seus lábios rosados bem finos, o cabelo preso em um rabo de cavalo alto que ainda assim mostrava que os fios pretos eram bem longos, passava da metade de suas costas coberta pelo uniforme militar.

— Vá logo para casa e aproveite seu tempo de folga, não importando se ele é curto ou longo — afagou de leve o ombro da garota e levantou-se, começando a arrumar a própria mochila.

Cada um dos membros que estavam em seu grupo, tinha uma história por trás que fez Takashi escolher-los... E com Aiko não era diferente, apesar da garota amar o que fazia, Takashi sabia que os cinco à sua frente também sentiam o mesmo que ele, às vezes a rotina pesada cansava demais.

[...]

Assim que abriu a porta do apartamento, resmungou xingamentos.

— Eu não deixei essa casa tão bagunçada assim... — Jogou a mochila grande e bem pesada no sofá antigo que tinha, caminhando até a cozinha enquanto observava a camada de poeira que estava pelos móveis, pelos chão, pequenas teias no canto das paredes.

Abriu a geladeira e retorceu o rosto ao já ver várias das frutas podres, os legumes estragados e algumas das coisas já fora da validade. Suspirou pesadamente ao coçar a nuca, antes de começar a jogar tudo fora, pondo em uma bolsa rapidamente enquanto torcia o nariz bem simétrico devido ao cheiro horrível.

Ponto negativo de praticamente se viver em uma Base Militar: você não cuida da sua casa devidamente, nunca.

Você é um bom soldado, porém se torna um mau civil.

Saiu do apartamento e caminhou até o duto de lixo enquanto segurava a bolsa de tudo o que estava estragado, abriu e jogou a bolsa ali, sentindo-se satisfeito pelo fim daquele cheiro horrível.

Voltou para o apartamento a passos calmos.

Caminhou até o pequeno pote de vidro que chamava de aquário e viu o peixinho dourado boiando morto na água. Retorceu o rosto novamente...

Pegou o pote e caminhou até o banheiro, levantou a tampa do vaso e despejou toda a água e o peixe morto lá dentro, dando descarga logo em seguida.

Olhou Golden, outro peixinho dourado seu, ir embora, enquanto murmurava pela décima vez em sua vida "Nunca mais terei outro peixe".

O celular tocou três vezes, despertando o de fios castanhos de seus pensamentos, fazendo abaixar a tampa da privada, lavar as mãos e então voltar para a sua medianamente espaçosa sala de estar que era ligada até a cozinha bem organizada apesar da poeira presente no chão, balcão, geladeira...

Pegou o celular, observando a mensagem que Liwei havia lhe mandado.

[Liwei]

Chegou já?

Estou saindo daqui agora... Quando eu chegar em casa eu te aviso.

Sorriu pequeno.

[Takashi]

Tudo bem. Já cheguei sim.

[Liwei]

Ok

[Takashi]

Foi tudo certo ai?

Seiji não implicou com nada besta?

[Liwei]

Sim, é mais burocracia chata mesmo… Mas dessa vez Seiji não parecia tão disposto a tomar meu tempo.

[Takashi]

Ok...

[Liwei]

Você vai ver o Nomura hoje?

[Takashi]

Estou refletindo sobre isso...

Mas creio que não.

Na realidade estou até desanimado em continuar com esses encontros.

Não vai ter futuro algum, não comigo tendo essa rotina.

[Liwei]

Hum... Bom, é o que eu sempre digo até para o pessoal da equipe… Ou temos nossas honrarias e méritos pela Baem, ou temos uma família. Os dois acabam não sendo possíveis de se ter juntos.

[Takashi]

Exatamente.

E eu prefiro muito mais a Baem, sempre vou preferir.

[Liwei]

Disso eu sei, Takashi.

Mas você quem sabe, não precisa acabar com tudo hoje, relaxa e pensa bem sobre.

Estou saindo daqui, até.

E o de fios castanhos bloqueou o aparelho, ignorando as outras mensagens que havia recebido do próprio Nomura Ethan.

Não sabia ao certo porquê, mas acreditava que tal relacionamento — mesmo que os dois nunca tivessem dito essa palavra em voz alta para definir o que tinham — estava indo longe demais.

Começou errado sabendo que Ethan — na época em que começaram a se envolver — tinha somente vinte anos de idade, e caso descobrissem, toda a carreira de Takashi iria por água abaixo devido a lei de que um militar não poderia se envolver com um civil com menos de vinte e um anos. E Takashi ainda poderia ser preso por ser um homem que mantinha um relacionamento com outro homem.

Porque a lei era bem clara e rígida em algumas questões, mas nenhuma realmente punia o homossexualismo, mas o comandante Ueno, seu próprio tio, sim. Ele era altamente contra, chegando a mandar prender soldados caso fosse descoberto que eles se relacionavam com pessoas do mesmo sexo, deixando claro seu posicionamento diante daquilo.

Ethan tinha maioridade, trabalhava, tinha a própria vida, mas por ter somente vinte anos, tornava-se impossível de se ter uma relação com qualquer militar de Kah Ulleugao.

Mesmo que injusta e um pouco sem sentido ao seu ver, essa era a lei.

E Takashi havia a quebrado em segredo.

Várias cenas de ciúmes também ajudavam Takashi a rumar para tomar a decisão de terminar com tudo que tinha com Nomura; assim como a curiosidade do moreno, a insistência sem limites e o fogo que o consumia, havia momentos em que Takashi queria conversar, contudo o garoto somente morria de tesão e parecia insaciável, os levando a transarem ou se envolverem em quentes amassos o dia todo, por todos os cômodos da casa que Ethan morava com o primo mais velho.

E não que Takashi estivesse reclamando daquele jovem, latente e hormonal desejo que o garoto tinha. Era ótimo, transar com Ethan era maravilhoso, o corpo dele o deixava completamente louco e em todo aquele tempo nunca tiveram uma transa ruim sequer.

O problema era que só parecia haver aquilo entre eles; Uma relação movida aos desejos sexuais… e se fosse somente isso, Takashi realmente não tinha muito desejo de manter o “relacionamento” por mais tempo enquanto recebia cobranças do garoto que não sabia absolutamente nada da sua vida.

Respirou fundo.

Foi até a própria mochila, abrindo-a e tirando parte de seus pertences dali de dentro.

Pegou tudo e caminhou até o quarto, deixando os objetos em cima da cama, indo até a janela e abrindo-a um pouco para poder fazer o ar circular naquele cômodo. Foi até o guarda roupa, pegando um short simples de algodão.

Retirou toda a roupa que usava e vestiu o short levemente folgado, saindo do quarto novamente para ir até a área de serviço, pegando a vassoura e começando a molhar um pano que já estava limpo, mas guardado no pequeno armário que tinha com produtos de limpeza.

Começou a varrer todo o chão, do banheiro, da sala, da cozinha… ia abrindo as janelas e varrendo tudo, passando pelo quarto, pelo corredor e então juntou tudo com a pá.

Pegou um pano pequeno e foi passando pelos móveis, batendo uma almofada na outra, passando no balcão, na geladeira, na pia, Takashi foi limpando tudo o que via que estava sujo.

Voltou a passar vassoura no chão, nos cantos das paredes, atrás dos móveis… E então começou a passar o pano úmido, foi limpando todo o piso de seu apartamento que não era tão grande e muito menos luxuoso apesar do dinheiro que recebia do exército.

Depois de quase três horas, parou somente quando recebeu mensagens de Liwei avisando que havia chegado em casa também.

Tomou banho quando terminou tudo e deixou um pacote de carne de porco e tiras de frango descongelando dentro da pia. Iria fazer um Rypô, uma comida nativa de Kah Ulleugao, que se consistia em um ensopado de pedaços de carne de porco, frango, batata doce, ervilha com macarrão feito de inhame.

Demorou um pouco mais na água quente caindo em suas costas, enrolando ao lavar o cabelo. Terminou e voltou para o quarto, desejando muito se afundar na própria cama cujos lençóis havia trocado durante sua faxina e dormir até o dia seguinte.

Vestiu um conjunto de moletom simples e voltou para a sala, pegando algumas das contas que o porteiro sempre deixava debaixo de sua porta e que o próprio Ishikawa já havia separado em cima da mesinha de centro. As abriu, vendo todas as cobranças… era um absurdo pagar tal valor pela conta de luz sendo que mal usava-a direito.

Revirou os olhos, determinando que as iria pagar todas no dia seguinte.

Voltou para a cozinha, coçando um pouco o cabelo molhado, procurando o pacote de macarrão feito de inhame em seus armários.

O celular voltou a vibrar em cima do balcão.

Olhou a tela, formando uma expressão levemente séria ao ler o nome de Ethan aparecendo ali.

Desbloqueou o aparelho e olhou as mensagens do rapaz seis anos mais novo.


[Ethan]

[Sábado - 13/03/21]

Chegou bem?

?

Takashi?

[Domingo - 14/03/21]

Hum, pelo visto você sumiu de novo...

Gostaria de saber o porquê desses sumiços...

Que tipo de emprego faz a pessoa desaparecer?

[Segunda - 15/03/21]

Estava pesquisando sobre essa sua rotina, estou achando que você deve ser repórter

Aí vai para outros países, investigar sobre certas coisas e não pode dizer...

Hmmmm, não achei nada aqui sobre seu nome. Nenhuma notícia que pode ter noticiado ou matéria com seu nome… Acho que me enganei então

É noite já...

Estou ficando excitado...

Vou bater uma pensando em você...

Metendo fundo e forte em mim, como da ultima vez.

Lembra?

Foi bem gostoso...

[Terça - 16/03/21]

Hey! Ainda não voltou?

Acho que devo começar a procurar outro ficante...

Se bem que essa ansiedade faz a foda ser mais gostosa, né?

Argh, eu te odeio.

[Hoje]

Tenho uma coisa para te contar

Hoje mais cedo, antes de eu ir para o trabalho, o meu primo perguntou porquê eu estou amuado

Eu disse que é falta do seu pau kkkkkkkkk ele só revirou os olhos e mandou eu ir logo embora…

Vocês podiam se conhecer, vocês são dois sérios chatos...

Hey! Você estava online!

Não me respondeu por quê?

E agora está lendo...

[Takashi]

Eu estava ocupado... Assuntos do trabalho.

[Ethan]

Hm... Me sinto patético agora por ter mandado aquelas mensagens todas...

[Takashi]

Não é como se você nunca tivesse feito isso, Ethan...

[Ethan]

Idiota...

Enfim, você está em casa?

O de fios castanhos suspirou um pouco, voltando a digitar.

[Takashi]

Estou sim.

[Ethan]

Quando vou poder ir aí na sua casa para conhecer e batizar o lugar?

[Takashi]

Nós já conversamos sobre isso...

[Ethan]

E isso me irrita pra caralho...

[Takashi]

Eu não posso fazer nada, Ethan.

Você conhece todos os meus termos.

[Ethan]

Podemos nos encontrar hoje, pelo menos então? Aqui na minha casa?

O de fios castanhos suspirou novamente. Sabia que por mais que pensasse em mil pontos negativos e mil motivos para encerrar de uma vez aquilo que tinha com o moreno, bastava uma pergunta. Bastava ter diante de si a possibilidade de vê-lo e tê-lo de novo para esquecer-se de tudo e se render aos desejos carnais — e sentimentais — que nutria.

[Takashi]

Tudo bem, passo aí quando for oito horas...


Bloqueou o celular não querendo ler a resposta que receberia vinda dele.

Apenas caminhou até a geladeira e pegou uma das poucas latas de cerveja que ainda estava dentro da validade, abriu e deu um grande gole na bebida que descia ardendo sua garganta.

Jogou-se no sofá, xingando-se por ser tão fraco quando o assunto era Ethan, e xingando-se porque agora tinha perdido a vontade de fazer seu Rypô.

[...]

O relógio marcava exatamente 20:02 quando Takashi desceu da moto vestido apenas com a bota do exército, uma calça jeans surrada, e uma blusa preta desgastada com um pequeno colar de prata ao redor de seu pescoço. Não o seu colar de identificação que usava na Base Militar, e sim um normal que usava quando era somente um civil porque estava sempre acostumado a ter a corrente em sua garganta e quando estava sem, sentia-se um pouco estranho.

Takashi caminhou tranquilo até a entrada da casa do Jeon que ficava do outro lado da cidade de Buanduli, segurando uma bolsa com pote de isopor que continha o Rypô que havia feito antes que desse a hora de ir para a casa do jovem e bonito moreno com quem ficava. Os dois poderiam comer juntos naquela noite.

O estômago do de fios castanhos já roncava devido a ele não ter comido ainda.

Havia passado boa parte do seu dia fazendo faxina e depois ficou fazendo a sua futura janta enquanto tomava as latas de cerveja ainda dentro da validade.

Tocou a campainha que ficava ao lado da porta de madeira.

Talvez, ou com certeza, não deveria estar ali.

Talvez, ou com certeza, deveria ter tido um pulso firme como o que o tio possuía e cortado logo tudo com Nomura. Acabaria com futuros problemas, futuras dores de cabeça... Contudo, não tinha tempo para conquistar outra pessoa, ou disposição para sair e encontrar alguém, não parecia desejar se envolver com outra pessoa.

Por mais que parte do motivo de estar ali fosse à comodidade, a outra parte, bom...

Ethan abriu a porta sorrindo.

... A outra parte era certamente o sorriso do garoto anos mais novo.

— Oi — Takashi falou calmo. Mas, ao invés do planejado, de realmente ser respondido com um "oi" ou um sorriso simples, Takashi foi simplesmente puxado para dentro da casa.

A bolsa que o de fios castanhos segurava foi ao chão na mesma velocidade em que o homem foi prensado na porta, depois da mesma ter sido fechada.

Às vezes esquecia que Ethan era um garoto bem mais jovem, eufórico e cheio de hormônios bem aflorados. Esquecia que ele não havia tido treinamento algum para esconder e retrair completamente o que sentia, Ethan era um rapaz completamente livre, expressivo, capaz de falar exatamente o que pensava sem correr o risco de estar desrespeitando algum tipo de hierarquia militar que existia a muitas décadas… Para Ethan, as coisas eram muito mais fáceis porque a vida dele era mais fácil sem as regras, e mesmo que estivesse dentro do exército também, sendo um simples soldado, sua vida seria mais fácil.

Takashi estava dentro demais daquele buraco, escondido e camuflado por entre as paredes secretas e muito perigosas das missões que fazia, dos ataques que fazia e impedia em nome de seu país...

E gostava bastante desse fogo de Ethan, sempre gostou, desde o primeiro momento juntos, gostava em demasia da vida livre que ele exalava.

Takashi gostava de ser mais selvagem no sexo, gostava de deixar a adrenalina tomar conta e extravasar todo o estresse de estar no exército e em áreas de combate… mas tudo isso na cama. E adorava ainda mais Ethan por retribuir tudo isso exatamente na mesma proporção.

Reclamava, resmungava, retorcia a cara e quando saia da Base Militar se transformava em algo que Liwei chamava de "Preguiçoso cachaceiro". Contudo, bastava estar a sós com o moreno que tudo se encaixava, que tudo parecia mais fácil apesar de soar enjoativamente clichê demais.

Ainda assim, a disposição o acertava com força, e mesmo que muitas vezes não acompanhasse o ritmo do fogo do mais novo, Takashi se esforçava para sempre satisfazer seu menino, para o ouvir falar sobre as trivialidades de sua vida, para dormir ao seu lado.

— Nossa, como eu estava com saudades de você... — Ethan resmungou beijando o pescoço do de fios castanhos com força, apertou a cintura do mais velho, pressionando ainda mais os dois corpos já bem colados, desejando mostrar o quanto o membro entre suas pernas já estava endurecido somente pela saudade de tê-lo assim tão perto.

— Não faz nem uma semana, Ethan — sorriu, levando uma das mãos até a nuca pálida.

Ethan era bonito. O cabelo preto e os olhos orientais eram clássicos, mas ainda assim as duas orbes bem escuras não eram totalmente puxadas, elas pareciam duas charmosas bolinhas de gude com traços mais japoneses — que havia puxado de sua mãe, uma mulher nascida em Kah Ulleugao, mas filha de imigrantes japoneses que se estabeleceram no país após a independência dele do Japão, pelo o que Takashi já havia ficado sabendo.

Ethan tinha a pele pálida, o corpo alto com seus um e setenta e sete de altura. Coxas bem fartas, ombros com músculos visíveis e uma cintura fina que era perfeita para se apertar com força… Tinha um nariz redondinho que puxou de seu pai — segundo o próprio Ethan — e lábios rosados e finos que puxou de sua mãe…

Era lindo e engraçado, foguento e carinhoso quando a parte mais sexual se findava… Era um garoto bom que infelizmente não sabia com detalhes quem era o homem com quem estava se envolvendo.

— E daí? Eu estou excitado! — Se afastou devagar, mantendo um sorriso malicioso nos lábios.

— Está? — Takashi não deveria, mas sorriu igualmente malicioso, deixando a luxúria se apossar de todo o seu corpo.

Ethan não o respondeu, apenas se afastou minimamente e tirou a blusa que usava, deixando seus mamilos marrons à mostra, assim como a epiderme bonita com algumas pintinhas aqui e ali.

Ishikawa sorriu, segurando a cintura do garoto mais novo com força, o levando até a mesa da cozinha e deixando-o sentado ali. Começou a chupar seu pescoço com força, talvez porque gostasse, talvez por vingança da última ficada onde Ethan também havia deixado várias marcas em seu corpo — o que gerou perguntas dos outros membros da Baem quando viram seu Capitão todo marcado no dormitório.

Ethan gemeu manhosamente, como sempre fazia.

Um fodido garoto que era manhoso no sexo.

Tomou os lábios dele com vontade, voltando a se afundar naquele mesmo gosto que anestesiava sua mente e vibrava em seu corpo. Chupou a língua alheia com força, ouvindo os gemidos abafados de Ethan serem contidos pelas duas bocas unidas.

Afastou-se e retirou a blusa também, sorrindo ao ver os olhos de Ethan brilharem, como toda vez que ele via a tatuagem no peito esquerdo do de fios castanhos.

Se tratava da escrita "Baem" em formato de Serpente; significado da palavra nativa do país, marcada em seu peito.

Havia feito a tatuagem no dia seguinte após ser admitido como Capitão da Baem, unidade que estava literalmente cravada em si.

Viu Ethan lamber a tatuagem, e perdeu o controle com a visão, segurando com força as coxas fartas do garoto e abrindo as pernas alheias ainda mais, apertando seu quadril e puxando-o para que os corpos ficassem melhor encaixados, deixando os dois membros, ainda cobertos, se roçarem com voracidade, simulando estocadas que faziam os olhos de Ethan revirar e o suor escorrer por sua testa.

Seu corpo estava quente.

— Hoje eu quero muito selvagem, ok? — Ethan soltou manhoso, levando as mãos até a braguilha da calça de Takashi.

— Você é quem man-

Se interrompeu ao ouvir o próprio celular tocar.

— Espera aí — murmurou mais roucamente, se soltando dos braços do garoto e pegando o celular no bolso de trás da própria calça.

— Takashi! — Ethan reclamou indignado, não recebendo nenhuma resposta do homem mais velho.

— Alô? — Takashi atendeu formalmente ao ver o nome "Tenente Toshio" aparecer em seu visor.

— Takashi? Precisamos da Baem agora!

— Como assim? Tem que ser agora? — resmungou, realmente irritado com aquilo. De soslaio já via Ethan fechar a cara, imaginando qual seria o desfecho de tudo aquilo.

Era como se estivesse vendo uma cena repetida várias vezes.

— Sim, tem que ser agora, o comandante está chamando, pelo visto é algum problema com a unidade especial de Fukuoka mais uma vez...

— Que merda — revirou os olhos, realmente estava começando a ficar bem irritado com aquela situação. — Esses caras não aprendem? Já ligou para os outros?

— O padrão é ligar primeiro para o Capitão, Takashi, se esqueceu?

— Não — riu sem humor, mordendo o lábio inferior com força ao esfregar as próprias têmporas com a outra mão. — Eu só… — suspirou mais uma vez — só estou estou bem puto com isso, mas ok. Ligue para os outros logo, até!

Desligou.

— Você vai embora, não é? — Ethan bufou, levantando-se da mesa e não escondendo nem um pouco a insatisfação palpável em seu rosto.

— Vou — respondeu mais seco, também irritado pela situação, não só por si, mas pelos demais membros de sua unidade… Eles mereciam descanso. Mas não havia nada que realmente pudesse fazer, então Takashi começou a vestir a blusa novamente.

— EU NÃO ACREDITO! — gritou, batendo o pé. Takashi olhou surpreso para o garoto, primeiro porque pelo poder que possuía, as pessoas não gritavam com ele então não estava acostumado, segundo porque era a primeira vez que Ethan chegava naquele grau de irritação, se pondo até a chorar ali mesmo, na frente do de fios castanhos. — Por que você vai embora? Por que toda hora tem que ir embora? Por que some assim? Por que não me conta nada desse seu trabalho? Por que eu me abro tanto com você e você simplesmente age como a porra de uma parede comigo? Você quer só ter sexo fácil comigo? É isso?

— Você fala dessa forma, mas acha mesmo que eu quero isso? — perguntou um pouco mais alto do que pretendia, levantando as duas sobrancelhas — Acha que eu fico feliz de ser chamado nesses momentos inoportunos? Que gosto de ter que ir correndo sempre que recebo um telefonema?

— ACHO! — Outro grito. — Eu acho sim, Takashi!

Ishikawa riu sem humor.

— Não percebe que eu também estou irritado com isso? Não consegue ver que eu não estou feliz? — Ergueu uma das sobrancelhas.

— Tudo o que estou vendo é você mais uma vez me largando pela porra de um telefonema! Me largando porque sempre surgem coisas que você diz que só você pode resolver! Eu sou tão insignificante assim? Realmente apenas uma foda que pode ser marcada para outro dia? — Não gritava mais, porém falava dois tons mais altos, estava realmente irritado com tudo aquilo, magoado. Ethan aguentou tudo em silêncio, e agora, como uma granada, explodia e ia destruindo tudo ao seu redor.

— Já conversamos muitas vezes sobre isso, é o meu trabalho, e isso é a maior prioridade na minha vida! Não importa com quem eu esteja, eu sempre vou largar em prol do meu serviço, Ethan — Suspirou pesado, não querendo perder mais tempo com aquela discussão enquanto precisava voltar para a base militar urgentemente.

Aquela era a rotina da sua vida.

— EU SEI! — gritou mais uma vez — Mas você não muda, nem me deixou te contar o que eu queria! Nem me deixa saber pelo menos com o que você trabalha para que eu possa me conformar mais!

— Você que já foi logo me agarrando, Ethan. Eu cheguei com comida para a gente comer junto e poder conversar pelo menos um pouco, mas você já partiu para a parte sexual.

— Ah claro, iríamos conversar sim, mas deixa eu só imaginar aqui — soltou completamente debochado — No meio da conversa esse maldito telefone começa a tocar e pronto, é: “tchau, Ethan” novamente e você sumindo de mim por dias outras vez!

— A culpa não é minha!

Ethan recuou um pouco, passando as mãos pelos próprios cabelos escuros.

Respirou fundo.

— Que seja, mas se você sair por aquela porta, acabou tudo! — falou forte, determinado — Eu estou cansado de ficar no escuro assim.

Takashi fechou os olhos por alguns segundos, também respirando mais profundamente.

— Você que sabe, Ethan — revirou os olhos, caminhando em direção à porta e abrindo-a.

Sem olhar para trás, saiu da casa de Ethan, enquanto o relógio em seu pulso marcava 20h26min. Subiu em cima da moto e rumou para casa pegar seus pertences e, então, ir direto para a Base Militar, deixando para trás o seu cheiro no corpo do moreno e o Kypô que tinha feito para os dois comerem ainda no chão dentro da bolsa.

[...]

Ninguém entendia, mas Takashi parecia ser o único animado em meio aquela noite escura. Agachados no meio do alto mato estava a Baem; monitorando atentamente os movimentos próximo a uma das casas abandonadas no meio do território japonês.

Em território considerado inimigo pelas rixas militares e políticas, a vantagem estava longe do alcance, mas ainda assim Ishikawa Takashi se mantinha confiante após mandar Aiko e Renalyn para o lado leste, observando as duas soldadas se esgueirando até próximo da parte de trás da casa.

Fukuoka era uma das cidades do Japão, onde a Taka — unidade das forças especiais do Japão — atuava como operante.

A missão era simples, uma simples caça de informações.

Taka estava sendo monitorada há um certo tempo pelo exército de Kah Ulleugao, com a suspeita de que eles estavam se aliando à Coréia do Norte e mandando informações de Kah Ulleugao para eles, a fim da união ficar mais forte e acabar gerando um ataque contra o país asiático vizinho.

Era certo de que o Capitão da Taka e Jihoon, um dos militares de alta patente dos norte-coreanos, iriam se encontrar naquela noite.

A missão era observar e recolher informações sobre a suposta reunião, eliminando quem fosse caso alguma informação importante de Kah Ulleugao vazasse.

Eram quatro horas da madrugada de quinta feita, somente oito horas depois do "encontro" com Ethan, e Takashi já estava ali, agindo completamente em alerta, com uma arma de fogo na mão e vestido com um uniforme que lhe protegeria caso fosse baleado. Essa era a vida que Takashi levava e gostava dela assim.

— Então acabou de vez? — Liwei perguntou baixo, visto que os dois conseguiram ficar sozinhos mais uma vez no meio daquela tocaia, e aí sim, o assunto poderia ser retomado já que nenhum dos outros membros da Baem, e até mesmo do exército, tinham conhecimento sobre a relação que Takashi matinha, e sobre a orientação sexual do mesmo, é claro.

— Sim — respondeu simples, mantendo os olhos e todo o resto do corpo em alerta, mesmo que seus homens estivessem monitorando cada movimento e tudo ali estivesse em um cerco altamente fortificado. — É até melhor, não era legal ele ficar tão preso a mim daquela forma, realmente no escuro — definiu a relação da mesma forma que o próprio Ethan havia definido...

— Entendi… — Liwei nem se prolongou no assunto, não era da sua conta e o momento realmente não era tão oportuno assim.

"Capitão, ainda não há nenhum sinal da Taka ou do Jihoon e seus homens em quilômetros… Não há sinal algum deles segundo a Aiko, senhor"

A voz de Yougi se fez presente nos ouvidos do de fios castanhos.

— Que horas que era para ocorrer essa reunião mesmo? — perguntou olhando para Liwei.

— Há mais de duas horas, senhor.

[...]

— MAS QUE PORRA FOI AQUELA? — Ishikawa esbravejou para o sargento Seiji.

— Como assim? — O homem levantou-se de sua cadeira e olhou Takashi de cima a baixo, havia desprezo ali, mas nada daquilo realmente o afetava.

— Os meus homens saíram de seus dias de folga para passar a noite olhando a porra de uma casa com a informação de que teria uma reunião secreta ali, mas porra nenhuma aconteceu! — falou dois tons mais altos — Eu quero uma explicação agora sobre isso!

— A ordem da missão foi feita pelo comandante Ueno Masao, Takashi, não há motivos para você vir gritar comigo! — Seiji explicou com a pouca paciência que tinha com o homem seis anos mais novo à sua frente.

— E onde ele está agora? — Perguntou sério, contudo, ainda bem irritado.

Receber uma missão falsa ou errada e mandar seus homens secretamente para um território inimigo era absurdo e perigoso em muitos níveis.

— Está se encontrando com o presidente, você quer ir lá e gritar com eles também? — provocou cerrando levemente seus olhos sempre expressivos e com típicos traços asiáticos por trás do óculos que usava.

Takashi cerrou os lábios, os olhos e os punhos. Olhando firme para o mais velho, bufou irritado e saiu da sala do outro.

Liwei o esperava na saída, com os braços cruzados e uma expressão fechada e bem cansada no rosto. Ambos estavam extremamente putos pelo ocorrido, contudo o taiwanês estava um pouco mais controlado que seu Capitão.

— Você sabe que merdas como essa acontecem, às vezes — Liwei tentou reconfortar.

— Eu sei disso, já fomos em algumas missões assim, mas algo está me cheirando mal por aqui! — murmurou no ouvido de seu próprio tenente, se mantendo atento a qualquer um que pudesse ouvir o que tinha acabado de dizer.

— O quê? Está suspeitando de agentes duplos? — Liwei perguntou baixo, confuso.

— Não sei... Talvez alguém infiltrado, ou cúmplice de algum inimigo — murmurou cutucando o interior da bochecha com a língua. O olhar foi para o chão, tentando recapitular qualquer coisa que pudesse ser usada como pista.

— Se é assim, fala com o Toshio, ele com certeza deve saber de algo...

Concordou silenciosamente com o amigo e seguiram até o homem que sabiam que continha diversa das informações importantes dentro do exército.

Caminharam debaixo do sol das dez da manhã enquanto viam vários soldados correrem para o terceiro aquecimento matinal obrigatório. Os cascalhos abaixo das botas pretas eram pisados com força, e só pararam quando os dois se viram diante do novo pelotão 154.

— E VOCÊ OUSA CHAMAR ISSO DE BATER CONTINÊNCIA, SOLDADO UEDA? — O homem gritou para um dos novos recrutas daquele ano.

A cada ano, novos recrutas chegavam à Base Militar de Pietra, seja por alistamento livre ou por alistamento obrigatório que valia dos 19 até os 25 anos, durando dois anos completos. E caso o alistamento não fosse realizado, eram decretados sete anos de prisão.

E todos eles sempre chegavam no meio de março, convertidos em uma unidade só, quando a primavera já estava próxima.

— NÃO, SENHOR! — O tal recruta gritou em resposta.

— ENTÃO BATA DIREITO, SEU GRANDE PEDAÇO DE MERDA! — gritou outra vez.

Parados, em frente ao pelotão de aproximadamente cinquenta e seis homens e mulheres, estavam Takashi e Liwei, olhando atentamente as continências mal feitas, as posturas erradas, o medo que fedia por entre eles e as pernas ficando bambas. Mesmo os novatos que não os conheciam, podiam sentir a grande presença que os dois militares com fardas com coloração mais escura do que a clássica verde usada até mesmo por Toshio, exalavam somente pela postura poderosa que carregavam. Takashi amava isso.

Amava o poder que exalava.

— Tenente Toshio, nós precisamos conversar — Liwei se pronunciou firme.

— Ah! Capitão Takashi! Tenente Liwei! — Toshio falou com um sorriso pequeno no canto dos lábios enquanto caminhava até os dois.

Usava somente as botas e calça militar fardada, a parte de cima do corpo era somente coberta pela blusa verde de manga curta, enquanto os outros ali usavam o traje completo durante a batida de continência.

Toshio também bateu continência para os dois que eram seus superiores ali dentro apesar da idade ser menor.

O colar de identificação que usava ao redor do pescoço continha seu código de identificação e seu nome “Harada T.” assim como a Base Militar a qual servia cravada por cima do metal que exibia quase invisivelmente o símbolo do exército de seu país.

— Precisa ser agora? — perguntou ao se aproximar um pouco mais.

— Você está muito ocupado? — Takashi perguntou baixo, analisando os rostos ali.

— Fui ordenado a cuidar e mandar esses novatos para o alojamento 154 e explicar como as coisas funcionam aqui — murmurou, revirando os olhos — Acho que esse ano eu que irei treinar os recrutas — bufou bem insatisfeito.

— Eu odeio essas tarefas... — Liwei resmungou e o outro Tenente logo balançou a cabeça concordando, apesar de jamais terem sido encarregados de fazer aquilo.

Mas detestavam somente por imaginar.

— Eu não gosto — Takashi sorriu pequeno, caminhando até os primeiros das três filas que havia ali. — Mas ver a carinha de assustados deles, ver a inocência e o medo — sorriu malicioso, vendo uma das garotas se encolher quando o mesmo se aproximou de uma das últimas fileiras. — É bastante divertido usar essa carne fresca para fazer muitos trabalhos su-

Parou.

Takashi parou de caminhar instantaneamente, deixando o queixo cair ao ver Ethan também lhe fitar horrorizado.

— O que você está fazendo aqui? — Ethan quase gritou caminhando sem pudor ou inteligência nenhuma até o de fios castanhos. Takashi se mantinha quieto, atônito. — Eu sou um fodido mesmo, puta que pariu! Eu devo ter chutado muitas cruzes em outra vida!

— SOLDADO! — Toshio gritou se aproximando, estupefato com tamanha falta de respeito e noção do garoto novo. — O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?

Ethan não se moveu.

— Pague vinte por se pôr à frente do Capitão Ishikawa e falar com ele dessa forma agora mesmo! — Toshio esbravejou. Takashi pode sentir algumas das pessoas à sua volta tremendo devido aquela voz.

— Então você é Capitão do exército? — Ethan perguntou ainda bastante incrédulo, parecendo não dar a mínima para o que acontecia à sua volta, sua mente somente ia juntando algumas pecinhas aqui e lá, entendendo algumas situações que agora faziam um pouquinho mais de sentido quando se olhava por tal ângulo.

— SOLDADO NOMURA! — O nome ser gritado só fez tudo ser mais real ainda para Takashi. Ethan realmente estava ali, na sua frente, na sua Base Militar, lhe vendo e sabendo bem como o homem era fora daquele lugar — CINQUENTA FLEXÕES, AGORA!

— Você não tem nada mesmo a me dizer, Takashi? — O tom foi mais baixo, todavia ainda havia muita irritação ali.

O de fios castanhos suspirou baixo, caminhando até estar mais próximo do corpo do moreno fardado.

— Você ouviu, sessenta flexões por conta dessa tremenda falta de respeito e senso, soldado! — Takashi falou alto e em bom som ao continuar cravando seus olhos nas orbes escuras de Ethan.


XXXXXXXXXXXXXXXXXXXX


Se você chegou até aqui, muito obrigada <3333


Espero que vocês tenham gostado dessa nova versão de Baem, gostado dos nomes e de tudo que eu adicionei <3333

Capítulo foi perfeitamente betado pela Jainara, minha linda que se esforçou contra o complô do universo que quase não a deixou betar hoje <3333

Não se esqueçam de votar e deixar um comentário bem legal <333 Obrigada mesmo <333




1.379 visualizações6 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Oiiiii!!! Demorou, mas chegou!! Aqui está mais um capítulo de Memórias Omitidas! Eu espero demais que vocês gostem do capítulo, e quero agradecer muito por todo o apoio de vocês <333 XXXXXXXXXXXXXXXXX